Vinte e quatro horas depois, o Espírito Santo recebe meus pés.

Cheguei em Vitória cansado, não aquele cansaço comum que se resolve com uma boa noite de sono, mas um cansaço profundo, daqueles que parecem morar dentro do corpo. Um cansaço de fim de travessia.

Foram 24 horas de ônibus. Em outro momento da vida, eu chamaria isso de loucura. Hoje, depois de atravessar trechos de quatro, cinco dias entre barcos e estradas, 24 horas parecem quase uma viagem curta. O referencial muda quando o corpo aprende que o mundo é maior do que imaginava.

Curiosamente, não senti tanto o peso do tempo. Senti o peso de mim mesmo.

O cansaço começou a aparecer nos detalhes, e são os detalhes que denunciam quando estamos no limite. Troquei palavras, esqueci nomes, deixei coisas caírem, saí andando com o capacete do mototáxi, devolvi o meu boné pra ele. Pequenos erros que não são apenas distrações: são sinais de uma mente que já rodou quilômetros demais.

Estou confundindo coisas que normalmente não confundiria. Pensamentos se embaralham como malas num bagageiro depois de muitas conexões.

Mas há um tipo curioso de clareza que nasce justamente quando estamos exaustos: a certeza de que está acabando.

Depois de Belo Horizonte, vem o Rio, minha casa número um. Depois, São Paulo, minha casa número dois. Só de pensar nisso, algo dentro de mim desacelera. A alma encontra um lugar para pousar antes mesmo da chegada.

E talvez por isso, agora, eu só consiga enxergar o que é bom.

Confesso que cheguei em Vitória com um certo receio. Cada nova cidade traz sempre uma pergunta silenciosa: como serei recebido aqui?

Ainda carregava comigo o episódio de Salvador, o senhor do carrinho gritando, a tensão gratuita, aquela sensação de estar sendo mal interpretado enquanto só se tenta fazer algo bonito.

Mas Vitória fez o que algumas cidades sabem fazer sem esforço: me abraçou.

Logo na chegada, parei numa barraca de café. E quem vive na estrada aprende rapidamente uma lei quase invisível das viagens: o primeiro encontro define o tom do lugar.

Se você é bem recebido na primeira conversa, o mundo parece abrir portas em sequência.

Foi exatamente assim.

O Empório Marianinha, um pequeno território dedicado ao bom, me recebeu com uma gentileza que mudou completamente o meu dia. Dali em diante, a feira do centro de Vitória deixou de ser apenas mais uma parada do Feirou Brasil e virou uma experiência viva, pulsante, memorável.

Gravei alguns dos vídeos de que mais me orgulho nessa viagem.

Saí da feira com aquela sensação rara de missão cumprida, não a missão grandiosa que muda o mundo, mas aquela íntima, silenciosa, que faz você pensar: era para eu estar aqui hoje.

Mas nenhuma travessia acontece sem algum tipo de renúncia.

No meio do processo, descobri que meu celular não suportava mais a viagem. Memória cheia. Nenhum espaço restante para continuar registrando o Brasil.

E então precisei fazer algo simbólico sem ter planejado: comecei a apagar partes da minha própria história.

Mais de mil fotos.

Mais de quatrocentos vídeos.

Aplicativos inteiros desapareceram da tela.

Memórias antigas cedendo lugar às memórias que ainda estavam acontecendo.

Durante alguns minutos, fiquei olhando para o aparelho como quem observa uma pequena fogueira, o passado virando cinza para que o presente pudesse existir.

Precisei liberar oito gigabytes de vida para continuar contando outras vidas. Acabei liberando 30.

E tudo bem.

Porque talvez viajar seja exatamente isso: entender que não dá para carregar tudo. Em algum momento, é preciso escolher o que fica e o que segue apenas dentro da gente.

As lembranças apagadas não deixam de existir, elas só mudam de lugar.

Agora, com espaço aberto e coração um pouco mais leve, sigo para Belo Horizonte.

Mais uma cidade.

Mais histórias.

Mais encontros.

Mais Brasil.

Se o cansaço me acompanha, a curiosidade também.

E enquanto houver estrada, haverá memória sendo criada.

Vamos para BH construir novas lembranças, dessas que não cabem em nenhum armazenamento, apenas naquilo que realmente importa.