Agora eu sigo a caminho de Porto Alegre.
Chego com a expectativa de que o ritmo da viagem comece, finalmente, a se alinhar com o que eu tinha planejado lá no início: chegar na cidade, visitar uma feira, tomar um banho na Smart Fit e seguir viagem. Estrada de novo. Movimento contínuo.
Mas Porto Alegre exige um ajuste.
De lá até Campo Grande, a próxima perna da viagem, são cerca de 20 horas de ônibus. É a primeira viagem realmente longa do Feirou Brasil. Vinte horas é quase um dia inteiro. Faz tempo que eu não encaro algo assim, e fazer isso logo depois de visitar uma feira, tomar banho e já pegar a estrada seria pesado demais.
Por isso, eu tinha pensado em dar uma pequena pausa em Porto Alegre. Respirar antes desse trecho longo.
Ao mesmo tempo, tem uma coisa que eu não quero de forma alguma: ficar em hostel de novo.
Aqui em Florianópolis, até consegui um hostel de R$ 70, o que ajudou bastante no orçamento. Mas a experiência é dura. Fiquei numa beliche, na parte de cima. Faz anos que eu não dormia em uma beliche. A última vez tinha sido num mochilão pela Europa. Quando acordei, com a coluna dura e o corpo reclamando, eu sinceramente não acreditava que conseguiria descer aquelas escadas de ferro.
E ali entrou uma camada mais profunda dessa história.
Depois do acidente de moto que eu sofri, quando quebrei a bacia em oito pedaços e virei os dois braços para trás, minha relação com o corpo mudou. Não tanto no físico, mas no psicológico. Fiquei com a movimentação um pouco comprometida, principalmente naquilo que eu acho que posso ou não posso fazer.
Quando vi que teria que subir e descer daquela beliche, me questionei se era capaz. Não só pela idade, que já começa a cobrar seu preço, mas por esse histórico que ainda mora em mim. O corpo lembra. A cabeça antecipa. E às vezes o medo chega antes do movimento.
Desci. Mas desacreditado.
O quarto era compartilhado, exclusivo para homens. Devia ter entre cinco e dez pessoas, mas eu nem consegui ver direito. Todas as camas tinham cortinas, todas fechadas quando entrei e quando saí. Por incrível que pareça, dormi muito bem. Apaguei. Dormi tão pesado que acordei com o braço completamente dormente dormi em cima dele a noite inteira.
Agora, o que não tem como ignorar: o cheiro.
Um quarto com dez homens, todos deixando toalha molhada em cima da cama, roupa úmida espalhada, pouca circulação de ar… não é questão de frescura. É falta de frescor no ar. Isso pesa. Isso cansa. Isso incomoda.
Some isso à cama que balança, às escadas de ferro da beliche e ao corpo já cansado da estrada, e fica claro: não é o tipo de descanso que eu quero repetir.
E aí entra uma decisão prática.
Se for para dormir mal, eu prefiro dormir no ônibus.
Dormindo pouco, mas seguindo viagem.
Sem gastar com hospedagem.
Sem forçar o corpo a se adaptar a um lugar onde eu não quero estar.
Para dormir num lugar onde eu não quero, eu já durmo no ônibus.
Além disso, a dinâmica muda completamente quando a viagem passa de um dia. Se são 20 horas de estrada, tanto faz a hora que eu vou sair, porque eu não sei exatamente a hora que vou chegar. Já não é mais uma noite “economizada” de hotel. É um dia inteiro em trânsito.
Então, em Porto Alegre, a decisão é clara: sair o mais rápido possível.
Chegar, filmar a feira, ir direto para a academia, tomar banho e voltar para a rodoviária. Sem esperar. Sem esticar. Sem criar uma pausa que não ajuda nem o corpo, nem o orçamento.
Porto Alegre vira ponto de passagem estratégica. Ajuste fino antes do trecho mais longo até agora.
O Feirou Brasil segue assim: com planejamento, correção de rota e escolhas que fazem sentido na vida real, não no roteiro ideal.


