Caminhando pelos centros das cidades do Sul: Curitiba, Florianópolis e agora Porto Alegre, uma coisa tem me atravessado com força.
A rua, para muita gente, deixou de ser caminho.
Virou fim.
Vejo pessoas que não estão ali por escolha, nem por passagem. Estão presas num estado de permanência. E quase sempre a explicação rápida é a mesma: drogas.
Mas não é bem isso que eu vejo.
Não vejo um Brasil dominado por heroína, crack ou cocaína, como o senso comum gosta de repetir para se tranquilizar. O que eu vejo é um país embriagado pelo álcool. A droga mais aceita, mais acessível, mais socialmente perdoada… e, talvez por isso mesmo, a mais devastadora.
O álcool tem mercado.
Tem lobby.
Tem empresários respeitados.
Tem propaganda.
Tem glamour.
E tem uma capacidade imensa de corroer pessoas, famílias e trajetórias, enquanto segue sendo tratado como algo normal, quase inofensivo. Uma droga legalizada, celebrada, mas profundamente destrutiva.
A rua cheia de corpos caídos não é só resultado de dependência química. É resultado de quebra de caminho.
E essa quebra começa muito antes.
Começa na falta de família.
Não falo de família perfeita.
Falo de presença.
Quando alguém começa sua caminhada sem o braço familiar por perto, sem alguém insistindo, cuidando, chamando de volta, o mundo fica grande demais. E a rua, que deveria ser passagem, vira abrigo, depois prisão.
As famílias precisam insistir.
Insistir nos filhos.
Insistir nos parentes.
Insistir no cuidado.
A maior herança que alguém pode deixar para outra pessoa não é dinheiro, não é patrimônio, não é status. É cuidado contínuo. É laço que se mantém. É alguém que não solta a mão.
As drogas, no fundo, são uma fuga da consciência.
E a consciência é o que nos estabelece como seres humanos.
Você é quem você é por causa da sua consciência.
Sem ela, você não atravessa nem a rua, quanto mais atravessa um país inteiro.
Essa viagem tem me mostrado isso todos os dias: atravessar cidades, feiras, estradas e histórias exige consciência plena. Exige presença. Exige estar acordado.
E não falo de expansão da consciência com artifícios.
Falo de algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil:
•o ar que você respira
•o que você come
•o que você pensa
•o que você vive
•com quem você anda
•quem insiste em você
É isso que expande a consciência.
Sem droga nenhuma.
A rua deveria ser luz.
Deveria ser ar.
Deveria ser movimento.
A rua deveria ser o caminho — nunca o fim.
E enquanto eu caminho por ela, feira a feira, cidade a cidade, sigo acreditando que devolver o sentido do caminho é uma das maiores urgências que a gente tem como sociedade.
Porque ninguém nasceu para terminar na rua.
Todo mundo nasceu para atravessar.
… partiu Centro-Oeste brasileiro 😉
