Depois de quase 30 horas de viagem entre Porto Alegre e Campo Grande, uma coisa começou a dar errado: o USB do banco do ônibus simplesmente não carregava meu celular.
Tentei de tudo.
Troquei de banco.
Procurei outra entrada USB.
Olhei o bagageiro superior em busca de alguma tomada escondida.
Nada.
Quando a bateria chegou aos 20%, decidi recorrer ao plano B: o celular sobressalente que estou trazendo justamente para esse tipo de situação. Foi aí que veio o susto.
O telefone não estava na bolsa.
Naquele instante, bateu o desespero. A primeira certeza que se formou na minha cabeça foi imediata: alguém pegou o celular. Eu tinha convicção absoluta de que havia carregado esse aparelho no quarto onde fiquei em Porto Alegre. Era a última lembrança nítida que eu tinha dele.
Mas a estrada embaralha tudo.
Respirei fundo e fiz a única coisa possível: usei o buscador do aparelho principal para localizar o telefone perdido. E então veio a surpresa que desmontou a minha própria memória.
O celular estava em Florianópolis.
No hostel onde fiquei.
Aquele hostel de R$ 70.
Eu não tinha carregado o telefone em Porto Alegre.
Eu não tinha carregado o telefone no Rio Grande do Sul.
A última vez que ele esteve comigo foi em Santa Catarina.
Ou seja: minhas memórias já estavam embaralhadas — comprovadamente.
Não era sensação.
Era fato.
Com prova geolocalizada.
Essa viagem está sendo intensa demais. Estados mudam rápido. Histórias se sobrepõem. Dias se misturam. E o que a gente acha que lembra com certeza, às vezes, nunca aconteceu daquele jeito.
A estrada não cansa só o corpo.
Ela bagunça a cabeça.
E talvez esse seja mais um aprendizado do Feirou Brasil: registrar importa. Conferir importa. Porque confiar apenas na memória, quando tudo muda o tempo todo, é um risco real.
Ainda bem que a tecnologia, dessa vez, jogou a favor.
