Estamos rumo a Cuiabá.
Acho que é o quinto ônibus.
Digo “acho” porque não conferi. E, honestamente, às vezes a percepção é mais real do que a realidade medida. É assim que essa viagem tem funcionado: menos planilha, mais sensação.
Confesso que minha vontade de fazer aquele discurso para os passageiros do ônibus hoje não estava tão grande. Cansaço. Corpo pedindo silêncio. Mas fiz mesmo assim. E, como tem acontecido, a receptividade e o interesse das pessoas me devolveram energia. O retorno é o combustível. É isso que me faz continuar.
Durante a viagem, acordo várias vezes. Sempre que abro os olhos, tem uma placa de retorno na estrada. É curioso isso. Placas indicando que dá para voltar. Mas a estrada em si não tem retorno. O caminho é longo, contínuo. E ele não é maior do que a grandeza de um brasileiro querendo entrar no Brasil de verdade — aquele que participa, constrói, insiste.
Tenho acordado engasgando durante toda a viagem. A posição do banco não favorece a respiração. Dormir sentado cobra seu preço. O corpo reclama em detalhes pequenos, mas constantes.
Pela janela, Cuiabá começa a se desenhar antes mesmo de chegar. Na minha cabeça, a cidade é uma mistura de amarelo com vermelho. O campo, ao redor, é branco com verde. Não sei se é assim de fato. Mas é assim que ficou em mim.
O ônibus está com um cheiro péssimo. Espero, sinceramente, que não seja o meu. A internet não pega em lugar algum. Parece até que minha operadora não é brasileira. E, de fato, não é mesmo. Ironia perfeita para uma viagem que fala tanto de soberania, de presença e de pertencimento.
A estrada segue.
Sem retorno.
Mas com sentido.


