A viagem de Cuiabá a Goiânia não foi nada fácil.
O ônibus saiu de Cuiabá às 1h40 da madrugada, mas a jornada começou muito antes disso.
Cheguei à rodoviária por volta das 22h, porque o shopping fechava às dez da noite e eu precisava sair dali. Isso significou esperar:
– das 22h às 23h
– das 23h à meia-noite
– da meia-noite à 1h
– da 1h às 1h40
Três horas e quarenta minutos esperando um ônibus.
O cansaço já estava instalado antes mesmo da viagem começar.
Para completar, surgiu mais um problema recorrente dessa estrada: carregar o celular. As tomadas disponíveis na rodoviária eram vinculadas aos cafés. Só podia carregar quem consumisse. Achei isso muito ruim. Muito mesmo. Energia virou produto. Sobrevivência virou consumo.
Depois de procurar bastante, encontrei uma tomada escondida num canto e consegui carregar um pouco o celular. Mas eu já estava suado, cansado, com as roupas sujas, tudo começando a grudar no corpo.
E aí entra um fator que pesa, literalmente, nessa viagem.
Eu tenho dermatite atópica.
Resumindo: alergia a quase tudo.
Roupas suadas.
Roupas não lavadas.
Tecidos em contato prolongado.
Qualquer coisa nova no corpo: um relógio, um cordão, um tecido diferente.
Tudo isso vira reação.
Hoje, posso dizer sem exagero: 100% do meu corpo estava alérgico.
Qualquer parte da pele que eu passava a mão tinha bolinhas. Coçava. Ardía. Incomodava. E incomoda muito viajar assim. Muito.
Mesmo assim, segui.
A viagem durou cerca de 18 horas.
Quando entrei no ônibus, já era madrugada. O ônibus não começava a rota em Cuiabá, ele já vinha da estrada. Os passageiros estavam dormindo. Não fazia sentido falar do Feirou naquele momento. Acordar pessoas cansadas seria desrespeitoso.
Então decidi não falar.
Mas isso começou a me corroer por dentro.
Durante toda a viagem, pensei várias vezes: “Será que agora falo?”, “Será que já acordaram?”
Depois de mais de dez horas de estrada, já era dia, por volta das dez da manhã. Olhei para trás. Ainda tinha gente dormindo. E eu desisti de novo.
E essa decisão, de não falar, começou a virar frustração.
Até que, já bem perto de Goiânia, pensei comigo mesmo: “Se tiver uma última parada, é porque é pra eu falar.”
Eu faço muito isso na vida.
Crio esses pactos silenciosos com o acaso.
E teve a última parada.
Conversei com o motorista.
Levantei.
Fui pelo corredor do ônibus, como sempre faço.
Tentei catequizar todo mundo com a história do Feirou.
E posso confessar uma coisa com toda honestidade: isso me alimenta.
A receptividade dos passageiros, os olhares atentos, as perguntas, o interesse — tudo isso me deu força. Foi isso que me fez chegar em Goiânia com energia, apesar do corpo cansado, da pele em crise, da estrada pesada.
Cheguei.
Fui direto para o hotel.
Lavei sete meias, cinco cuecas, uma toalha e uma blusa de manga longa.
Pendurei tudo.
Organizei o mínimo para seguir.
Depois, fui procurar uma Smart Fit perto do hotel. Amanhã cedo, vou à Feira da Don Bosco, a pé, sentindo a cidade. Volto ao hotel, faço check-out ao meio-dia, vou para a academia, treino, tomo banho e sigo para a rodoviária de Goiânia.
A rodoviária aqui é grande, organizada, tem um shopping dentro. A ideia é casar as coisas: descansar um pouco melhor, organizar a cabeça, carregar o celular sem tensão.
Às 22h40, parto para Brasília.
A estrada segue.
Com alergia.
Com cansaço.
Com roupa secando em varal improvisado.
Mas com a certeza de que, quando a palavra encontra gente disposta a ouvir, o corpo aguenta tudo.
Vamos ver o que Goiânia guarda pra gente amanhã.
