Quando Brasília surge ao longe, a sensação é estranha.
Parece uma cidade afundada dentro do próprio país.
Do alto, o que se vê é um mar de luzes lá embaixo, como se o Brasil estivesse em outro plano, distante, rebaixado. Antes de Brasília, uma favela imensa. Um contraste brutal. E a pergunta vem automática: como um país permite tamanha desigualdade convivendo tão perto do poder?
Brasília não foi boa pra mim.
E não é por falta de gente boa, pelo contrário.
Os feirantes são maravilhosos.
A população é especial.
O comércio é acolhedor.
O problema não são as pessoas.
São as ruas.
Brasília é desumana para quem anda.
É uma cidade feita para carros.
Reta, fria, extensa demais para os pés.
As distâncias não convidam ao encontro, impõem afastamento.
Tudo ali é motor.
Pouco corpo.
Pouca vida caminhável.
Brasília reflete um país pensado de cima para baixo, não de baixo para cima.
Um poder desenhado para o próprio poder.
Uma cidade que organiza o espaço para governar, não para viver.
Fico triste ao ver uma capital que não capitalizou o seu povo.
Que não transformou proximidade de poder em proximidade de dignidade.
Brasília não deveria se chamar Brasília.
Deveria se chamar Poderília.
Um lugar onde o poder se concentra, se protege e se distancia, enquanto o povo orbita ao redor.
E, se um dia eu chegar lá, eu mudo tudo.
Porque cidade não é monumento.
Cidade é gente.
E o Brasil precisa de capitais que caminhem junto com o seu povo, não acima dele.
