Na rodoviária de Cuiabá, tive uma sensação estranha e profunda: era como se eu estivesse vendo meu avô mais novo.
Um homem simples, desses que não chamam atenção, usava a tomada de carregamento enquanto tomava um café. Ele observou, em silêncio, o pequeno levante que eu estava fazendo ali — tentando fazer com que mais pessoas pudessem usar as tomadas, sem precisar consumir, sem constrangimento.
Quando terminou o café, ele se levantou.
Não disse uma palavra.
Apenas apontou para a tomada que tinha acabado de usar, sugerindo que eu a ocupasse. E, junto com o gesto, veio o rosto. A expressão exata. O mesmo jeito. O mesmo olhar que meu avô fazia quando queria ajudar sem alarde, sem discurso, sem heroísmo.
Era um gesto curto, quase invisível.
Mas carregado de humanidade.
Ali, naquele instante, entendi uma coisa importante sobre o Brasil que estou atravessando: o país não se sustenta só nas grandes ideias ou nos grandes projetos.
Ele se sustenta nesses homens anônimos, nesses gestos mínimos, nessa ética silenciosa de quem entende o coletivo sem precisar nomeá-lo.
Talvez meu avô nunca tenha rodado o Brasil como eu.
Talvez nunca tenha falado em mapa, em projeto, em futuro.
Mas ele certamente sabia — como aquele senhor sabia — que quando alguém precisa de energia, a gente aponta a tomada.
E segue o caminho.
