Como o seu Luís tinha avisado, a viagem direta de Palmas (TO) para Porto Velho (RO) não seria possível.
E ele estava certo.
Foi preciso refazer a rota, voltar para Goiânia e, só então, seguir rumo a Porto Velho. Um trecho que não estava no roteiro original. O primeiro, até aqui, que realmente saiu do plano.
E foi justamente nesse ônibus fora do plano que tudo parecia dar errado.
Esse foi o único ônibus da viagem inteira em que eu quase não consegui falar sobre o Feirou para os passageiros. E isso, pra mim, pesa. Porque falar do Feirou virou parte do caminho, não só do projeto.
Dessa vez, eu tentei fazer “do jeito certo”.
Pedi autorização para o motorista 1.
Depois para o motorista 2.
Depois para o fiscal.
Três autorizações.
Eles entenderam o projeto, gostaram da ideia, pediram para eu esperar passar por Porto Nacional, porque entraria mais gente no ônibus. Combinaram comigo que manteriam a luz acesa por alguns minutos para eu falar.
Só que, na saída…
apagaram a luz.
No automático.
Sem maldade.
Sem intenção.
E ali veio o aprendizado, claro como estrada de dia: as oportunidades precisam ser aproveitadas no momento em que surgem.
Não dá para deixar para depois.
Depois, muitas vezes, não existe.
Talvez esse ônibus extra estivesse ali exatamente para me ensinar isso.
Talvez o plano não fosse falar naquele momento.
Ou talvez fosse aprender a não adiar mais nada.
Mas a estrada, como sempre, se rearranjou.
Na parada para o jantar, os próprios motoristas vieram me chamar:
— “E aí, você falou do seu projeto?”
Expliquei que a luz tinha sido apagada.
Eles riram:
— “Foi no automático. Mas agora, saindo daqui, você fala.”
E falei.
Deu tudo certo.
Mais um comboio do Feirou seguindo pelas estradas do Brasil.
>>> Um ônibus difícil, uma escolha mental.
Esse foi, disparado, o ônibus mais conturbado da viagem.
O banco onde eu estava não parava de trepidar.
Debaixo dele, parecia haver algum problema no eixo, na roda, em alguma engrenagem invisível.
Era vibração constante.
Reclamações começaram a surgir.
Eu decidi fazer outra coisa: transformei aquilo, mentalmente, numa cadeira de massagem daquelas de shopping ou academia.
Pronto.
Doze horas de “massagem”.
Funcionou — pelo menos pra mim.
Nem tudo se resolve mudando a realidade.
Algumas coisas se resolvem mudando a leitura dela.
>>> O Brasil real também viaja no mesmo ônibus
Teve mais.
Um passageiro com claros problemas mentais foi expulso do banco por outro passageiro durante a noite. Ele gritava:
— “Sai daqui! Sai daqui!”
Ele foi para outro lugar.
Depois entrou no banheiro gritando, falando de demônios.
O ônibus parou.
O clima ficou pesado.
Esse também é o Brasil que se move pelas estradas: sem preparo, sem acolhimento, sem estrutura para lidar com a diferença.
Foi um ônibus velho.
Cadeira que não reclinava.
Desconfortável.
Cansativo.
Longo.
Mas o propósito aconteceu.
E quando o propósito acontece, a viagem ganha sentido, mesmo sendo ruim.
>>> Goiânia de novo, espera de novo, estrada maior ainda
Cheguei em Goiânia sabendo que teria que esperar.
O ônibus das 10h para Porto Velho custava cerca de R$ 900 e a empresa não parcelava.
Não dava.
A outra companhia permitia parcelar, mas só tinha saída às 18h.
Então é isso: esperar.
Fui à Smart Fit.
Malhei.
Tomei banho.
Tentei trabalhar numa padaria chamada Padá — sem Wi-Fi.
Sem Wi-Fi, sem vídeo hoje.
Só texto.
Só relato.
Só o essencial.
O próximo ônibus sai às 18h de sexta-feira e só chega em Porto Velho no domingo à tarde.
Uma travessia longa.
Muito longa.
Mas a estrada já ensinou: quando tudo parece dar errado, quase sempre é porque algo importante está sendo ajustado.
Seguimos.
Com erro.
Com aprendizado.
Com fé no caminho.
Feirou Brasil continua, mesmo quando o roteiro muda.
