Essa viagem de Goiânia para Rondônia está rendendo histórias que nenhum roteiro daria conta de prever.
No meio do ônibus surgiu um personagem que roubou completamente a cena: um senhorzinho de touca, desses que parecem carregar o mundo dentro da cabeça. Ele não é só passageiro — ele é guia, conselheiro, fiscal, narrador e manual ambulante de sobrevivência na estrada.
Está indo de Goiânia até Porto Velho e, nesse trajeto, assumiu a missão informal de ensinar todo mundo a viver a vida — e, principalmente, a andar de ônibus. Ele sabe o nome de todas as cidades, comenta cada parada, explica cada trecho, cada atraso, cada detalhe. É uma Wikipédia humana, daquelas que não precisam de Wi-Fi nem bateria.
O momento mais emblemático aconteceu quando uma passageira entrou no ônibus com excesso de bagagem. Ela estava indo para Rio Branco, no Acre, e não tinha dinheiro suficiente para pagar as malas extras. O ônibus precisou parar. A viagem atrasou. E, no fim, foi feita uma vaquinha entre os passageiros para que as malas dela pudessem seguir.
E aí entrou em cena o guru.
Durante boa parte da viagem, ele repetiu sua lição com a sinceridade crua que só a estrada permite:
“A senhora precisa sair de casa preparada. Não é achar que o dinheiro vai dar. É sair com mais do que acha que vai dar.”
Ela tentou se defender, dizendo que tinha feito as contas, que achou que seria suficiente. Ele retrucou sem rodeios:
“Pois é exatamente isso. A senhora achou. E achar não é planejar.”
Chegou a dizer, sem suavizar:
“A senhora atrasou a viagem de todo mundo.”
Parecia um conflito anunciado. Mas a estrada também ensina outra coisa: convivência.
Com o passar das horas, o tom mudou. Eles começaram a conversar. Rir. Trocar histórias. Agora estão sentados lado a lado, batendo papo como velhos conhecidos. O mesmo homem que chamou atenção virou companhia. A mesma situação que gerou tensão virou aprendizado coletivo.
No meio do caminho, paramos num lugar chamado Terraços Restaurante e Lanchonete. No banheiro, uma curiosidade digna de nota: tem a imagem do Cebolinha estampada na porta. No feminino, nenhuma Mônica. Mistérios do Brasil profundo que ninguém explica, mas todo mundo observa.
Essa viagem está sendo isso: um curso intensivo de Brasil real.
Sem filtro.
Sem roteiro.
Com personagens improváveis, lições desconfortáveis e encontros que só acontecem quando a gente aceita o tempo da estrada.
No ônibus, entre Goiânia e Porto Velho, um senhor de touca está lembrando a todos nós que viver exige preparo — mas seguir exige humanidade.
E a estrada segue ensinando.

