Foram quase quatro dias saindo de Palmas até chegar a Porto Velho.

Passando por Goiânia.

Ônibus trocado.

Rodoviária.

Garagem de empresa.

Banho improvisado.

Histórias demais para um corpo só.

A viagem foi longa. Cheia de acontecimentos. Ônibus lotado de Brasil, de problemas, de risadas, de conflitos, de aprendizados. Mas nada, absolutamente nada, se compara ao que aconteceu em uma única hora dentro de uma feira em Porto Velho.

Quatro dias de estrada não chegam aos pés de uma hora de feira.

E aí sempre vem a pergunta:

“Mas dá pra conhecer uma cidade em uma hora?”

“Dá pra entender uma cultura?”

“Dá pra sentir o dia a dia?”

Dá.

Se você for à feira.

Esse virou meu princípio definitivo de viagem.

Turista que vai à feira conhece a cidade inteira.

Porque a feira não é cenário: é essência.

Em Porto Velho foi assim.

Desci do ônibus e já emendei num mototáxi. O trajeto foi curto, mas virou aula. Por oito reais, ganhei um guia turístico completo: Madeira-Mamoré, a hidrelétrica de Santo Antônio, o bairro Cai na Água, histórias da cidade, do rio, da usina, da vida. Gentileza amazônica em forma de conversa rápida, daquelas que ficam.

Cheguei na feira e o tempo virou ouro.

Conheci o seu Henrique, peixeiro, daqueles que carregam o rio nas mãos.

Conheci o seu Nilson, do açaí, simples, forte, verdadeiro, do jeito que o açaí precisa ser.

Conheci José e Francisca, que representam o Brasil que acorda cedo, trabalha junto e sustenta família inteira com dignidade.

Era uma feira popular.

Uma feira do povo.

Uma feira com cheiro de peixe, de goma de tapioca, de castanha, de pupunha, de açaí batido na hora.

Segundo o motorista do Uber que peguei na volta, era a maior feira de Porto Velho.

Coincidência surreal ou destino bem alinhado.

Cheguei num domingo, ao meio-dia.

A feira acabava às 13h.

Tive uma hora.

E usei até a última gota.

Até a última castanha.

Até a última ticada do peixe.

Até o último pozinho da goma.

Até o último copo de açaí.

Até a última pupunha tirada direto do pé.

Até a última feira de Porto Velho que eu podia viver naquele dia.

Foi rápido.

Foi intenso.

Foi suficiente para entender a cidade.

Porto Velho é linda.

Porto Velho é forte.

Porto Velho é povo.

Com certeza eu volto.

Quando eu tiver grana, eu volto com calma.

Por enquanto, o Feirou Brasil segue assim: na correria, dormindo em rodoviária, dormindo em ônibus, tomando banho em academia, tomando banho em rodoviária, improvisando tudo, fazendo do jeito que dá.

Porque só assim dá pra fazer essa viagem acontecer.

Só assim dá pra contar o Brasil real.

Só assim dá pra provar que uma feira vale quatro dias de estrada.

E Porto Velho provou isso em uma hora.