Descobri que no barco dá para tomar banho.

Demorei. Não por falta de curiosidade, mas porque algumas coisas só se revelam quando a gente desacelera o olhar. Depois de entrar uma, duas, três vezes no banheiro, entrei num que estava completamente diferente: quente, vaporizado, quase uma sauna improvisada. Foi ali que, pela primeira vez, levantei os olhos e reparei no teto de ferro azul. Um chuveiro. Simples. Exposto. Funcional. Estava ali o tempo todo.

Agora escrevo da rede, embalado pelo balanço sutil do Rio Negro. O silêncio finalmente chegou — ou algo próximo disso. O motor do barco não para, mas depois de um tempo ele deixa de ser ruído e vira zumbido. O corpo aprende a conviver. A mente também.

Não estou olhando muito a paisagem. Talvez devesse. Mas algo me diz que vou vê-la querendo ou não por muito tempo. Não há pressa. Não há fuga. O rio vai impor sua presença. Então fico deitado, deixando o corpo descansar e a mente flutuar nesse movimento repetido que quase hipnotiza.

O tédio aqui é grande. Não há internet. Não há conversa que eu queira puxar hoje. Não é solidão — é cansaço. Já são mais de 300 horas em trânsito, somando ônibus, rodoviárias, conexões improvisadas. E ainda tenho pelo menos três dias de barco pela frente.

Enquanto isso, recebo mensagens de gente que não aguenta seis horas entre Rio e São Paulo sem reclamar de frio, torcicolo, joelho, sinusite, dor de cabeça. Pessoas que precisam de dois dias de repouso depois de um deslocamento mínimo. Essas mesmas pessoas dizem: “vidão, aproveita”.

Essa viagem também ensina algo duro: existe muita gente alienada ao nosso redor. Não é inteligente supor empatia. Não é prudente esperar compreensão. O mais honesto é nivelar o outro sempre pelo mais baixo — e, com a convivência, ir entendendo quem é quem.

Mas voltemos ao banheiro azul.

As paredes são de ferro frio, todas azuis. O encanamento é aparente, básico. Uma pia rudimentar. Um vaso padrão lanchonete de estrada. Nada confortável, nada sofisticado. Mas como as pessoas tomam banho ali o tempo todo, o banheiro parece estar sempre sendo lavado. Menos o vaso — esse certamente sofre com o passar das horas e dos corpos.

Eu precisava daquele banho. Já tinha quase 24 horas desde o último. E havia um problema prático: eu estava começando a cheirar a mijo. Não sei exatamente por quê. Talvez essas cuecas velhas e finas que escolhi para secar rápido. Talvez o corpo cansado. Talvez tudo junto. O fato é que não dava para continuar.

Levantei da rede decidido: melhor trocar a cueca antes que ela transforme a rede num banheiro químico balançante.

Com a privacidade garantida pelo barulho constante do motor, e com outros banheiros disponíveis ao lado, resolvi ir além. Fiz uma limpeza total. Tomei banho. Fiz a barba. Cortei o cabelo ali mesmo, no barco. Sem espelho. Usando a câmera do celular como guia improvisado — pouco eficiente, diga-se.

O resultado? Não sei. Provavelmente desigual, com falhas aqui e ali. Mas a sensação foi ótima. Experiência de higiene no barco: aprovada com méritos.

Agora resta observar a comida. Tomei café às oito da manhã. Pelo que parece, só servem jantar. Vou maneirar. Não quero encarar o banheiro para o número dois. Apesar do banho ter sido bom, prefiro sempre tomar banho depois — e só pretendo tomar um banho por barco.

Além disso, banho demais piora minha alergia de pele. O sabonete e o desodorante já estão no fim. E não dá para comprar isso aqui. Então tudo precisa ser feito com medida.

Como toda nova experiência exige.

Aqui, no meio do rio, aprendendo mais uma vez que atravessar o Brasil não é sobre conforto, nem sobre narrativa bonita. É sobre adaptação. É sobre limite. É sobre entender o corpo, respeitar o tempo e aceitar que, às vezes, o maior luxo é simplesmente conseguir tomar um banho num banheiro azul no meio da Amazônia.

E seguir.