Peguei agora um carro de aplicativo saindo da Smart Fit de Santana, município colado em Macapá e onde fica o porto. É dali que o barco vindo de Santarém deixa os passageiros antes da última perna até a capital do Amapá. De Santana até Macapá dá mais ou menos uns 30 minutos de Uber. Tempo suficiente para uma das conversas mais engraçadas e reveladoras da viagem até agora.

O motorista se chamava Moisés. E foi uma pena enorme eu não ter gravado a conversa inteira, porque eu estou rindo até agora lembrando de tudo que foi dito naquele carro.

Moisés começou a falar sobre a relação do povo de Macapá com o açaí. Relação não — dependência. Paixão não — vício. Foi exatamente essa a palavra que ele usou: vício.

Ele contou que veio do Maranhão quando tinha uns 10 anos e que, ao chegar aqui, entendeu rápido que o açaí não é acompanhamento, não é sobremesa e muito menos modinha. Aqui o açaí é estrutura alimentar, emocional e cultural.

A conversa engrenou de vez quando ele contou um caso do tempo em que era taxista. Disse que certa vez recebeu uma ligação às três da manhã de uma passageira. Ela pediu que ele fosse até algum lugar onde ainda tivesse açaí sendo vendido, comprasse açaí e também linguiça. O motivo? Os filhos estavam sem comer desde cedo.

Sem comer por quê?

Porque não tinha açaí em casa.

Não era fome comum. Era falta de açaí.

Depois disso, Moisés fez questão de afirmar, com convicção absoluta, que ele não era viciado em açaí. Eu deixei ele falar.

Disse que come açaí no almoço.

Na janta.

Às vezes durante o dia com farinha.

Logo cedo, só umas colheradas, pra acordar pro dia.

E aí ele concluiu:

“Mas eu não sou viciado não.”

Nesse momento eu já estava dobrado de rir no banco de trás.

Falei pra ele:

“Isso aí é pior que crack, então.”

Ele respondeu sem pensar:

“Rapaz… é bem pior. Vicia muito mais.”

E completou, sério e rindo ao mesmo tempo:

“Tu vai tomar aí. Mas toma cuidado. Porque a primeira vez… tu nunca mais esquece.”

Ali eu entendi tudo. O açaí aqui não é só alimento. É memória afetiva. É costume passado de pai pra filho. É ausência sentida, é urgência, é identidade. O que em outros lugares virou produto gourmetizado, aqui continua sendo o que sempre foi: base da vida.

Brinquei dizendo que ele precisava frequentar o AA — Açaís Anônimos. Ele riu alto. Riu de verdade. Daqueles risos que confirmam tudo sem precisar admitir nada.

Saí desse carro com a certeza de que conhecer uma cidade não é visitar ponto turístico. É entrar num Uber, ouvir histórias e entender que, em Macapá, ninguém vive sem açaí. Não por moda. Por necessidade. Por pertencimento.

E eu mal cheguei.