Macapá, vou te falar: terra boa demais.
Não consegui escrever o texto do blog ontem à noite, já no quarto do hostel, porque o corpo simplesmente pediu descanso. E talvez isso diga muito sobre a experiência: Macapá foi intensa. Foi entrega total. Foi feira do começo ao fim.
Diferente de outras cidades, aqui eu me dediquei cem por cento a extrair o melhor da feira. Mesmo recebendo muitas negativas, eu tentei entrevistar todos os feirantes. Fui de banca em banca, de olhar em olhar, de “agora não” em “hoje não dá”. Em Macapá, o “não” apareceu mais do que o “sim”. Mas eu decidi fazer do “não” combustível. Porque, às vezes, é justamente insistindo com respeito que a gente encontra as histórias que precisam ser contadas.
E alguns feirantes disseram sim. Poucos, mas suficientes para fazer um episódio forte, honesto e bonito do Feirou. Eles deram um show. Contaram suas histórias do jeito deles, a partir da feira, a partir do cotidiano, a partir do Amapá real.
>>> Dormir no meio do mundo
Fiquei hospedado no Hostel No Meio do Mundo. Um lugar espetacular. Tudo limpo, organizado, simples e verdadeiro. O tipo de lugar onde o olhar passa confiança antes mesmo da palavra.
Quem cuida do hostel é um casal muito gente boa. No começo, um pouco encabulados — aquela timidez que não é desconfiança, é cuidado. Depois que a conversa engrena, tudo flui. Fiquei só um dia e já me senti em casa.
Conheci hóspedes muito legais: um rapaz que trabalha no Ibama, outro que já morou em São Paulo. Como sempre, falei do Feirou para todo mundo. Não como propaganda, mas como troca. É no olho no olho que surgem seguidores de verdade.
>>> Novo Buritizal: a farinha peneirada do episódio
A primeira parada foi a Feira do Novo Buritizal, no bairro Novo Buritizal. Conversei com o Ananias, representante da feira, que autorizou a gravação e abriu caminho para o conteúdo acontecer.
Ali, filmei uma feirante divertidíssima da banca de farinhas. O momento mais bonito foi o atendimento dela a uma senhora oriental. Uma conversa simples, cotidiana, mas cheia de humanidade. Foi o creme de la creme do episódio. Ou melhor: a farinha mais bem peneirada de Macapá.
>>> Feira da 13: insistir também é respeito
Depois fui à Feira da 13. Tentei falar com literalmente todos os feirantes. Uns setenta, talvez. Apenas quatro aceitaram gravar.
É pouco? É.
Mas faz parte.
A feira também é isso: silêncio, recusa, trabalho corrido, desconfiança. Mesmo assim, segui. Gravei o que deu, registrei o ambiente, respeitei quem não quis aparecer. No final, até esqueci de colocar um feirante no vídeo, mas corrigi nos stories. Faz parte da correria real.
>>> Feira do Caranguejo: afeto com casco
Na Feira do Caranguejo, encontrei vendedores simpáticos, gente boa demais. Fiz carinho em caranguejo, vi caranguejo tentando escapar, ouvi risadas. Teve história até com os bichos.
Ali a feira pulsa. É viva. É barulho, é movimento, é mão suja de trabalho.
>>> Mercado Central, Fortaleza e o açaí como comida
Por fim, fui ao Mercado Central de Macapá, em frente à Fortaleza de Macapá. Visitei o forte, conversei com guias, gravei stories. Não porque o Feirou seja sobre turismo, mas porque o turismo que me interessa nasce da feira. Quem conhece a feira, conhece a cidade inteira.
Ali comi açaí do jeito certo. Ou quase! Açaí como refeição. Com peixe, arroz, feijão. Nada de sobremesa, nada de doce gourmetizado. Açaí como alimento, como base, como cultura.
As pessoas vieram conversar comigo. Me ensinaram, corrigiram, explicaram. Macapá abraça. Macapá orienta. Macapá cuida.
Depois de dias dormindo em ônibus e barcos, Macapá foi o primeiro lugar onde dormi numa cama. Talvez por isso tenha me permitido esse pequeno passeio a mais. Talvez por isso tenha sido tão especial.
>>> Agora, o barco de novo
Agora estou de novo no barco. Rede armada. Confesso: não gosto dessa experiência. Mas é o único caminho para Belém. Então vamos.
Macapá ficou. Ficou na feira, no povo, no açaí, no “não” que virou conteúdo sim, no sim que virou história.
Macapá foi bom demais.
