Posso dizer, sem exagero, que estou totalmente amazonizado.
Talvez isso já tivesse começado lá atrás, quando o Feirou Brasil entrou na era dos barcos — de Manaus para Santarém, de Santarém para Macapá. Mas foi neste último trecho, de Macapá para Belém, que a Amazônia se apresentou por completo. Sem pedir licença. Sem economia.
Ela veio em forma de floresta infinita.
Em forma de sol que incendeia o rio.
Em forma de água que reflete o céu.
Em forma de ribeirinhos que fazem da margem o centro do mundo.
É um cenário sem igual no planeta.
Deslumbrante. Vivo. Hipnotizante.
Viciantemente fotografável.
Já tirei centenas de fotos — talvez milhares — e a sensação é sempre a mesma: a de que ainda perdi algumas. Sempre falta uma. Sempre falta aquela que os olhos viram, mas a câmera não alcançou.
Escrevo olhando pela lateral do barco.
Escrevo um período.
Levanto os olhos para o reflexo do pôr do sol no rio.
Escrevo mais um pouco.
Olho a floresta passando em silêncio.
Escrevo menos — para ver mais.
Porque aqui, escrever demais é quase uma afronta à paisagem.
O barco em si segue sendo o mesmo personagem cansado de sempre.
Atrasos.
Grosseria da tripulação.
Redes que se batem umas nas outras, como se disputassem espaço até no descanso.
Banheiro onde você entra limpo e sai… menos limpo.
É o básico mal feito. Sempre.
Mas a Amazônia compensa tudo isso com uma entrega que nenhuma empresa do mundo conseguiria igualar: cinco estrelas da natureza em estado bruto.
A floresta cobre o mau serviço do homem com uma generosidade que chega a constranger.
Fico pensando que o dia em que alguém resolver entregar o básico bem feito aqui — transporte digno, atendimento humano, infraestrutura mínima — vai navegar de braçada. Vai dominar esse eixo. Vai transformar tudo. Mas isso exige duas coisas que parecem raras por aqui: investimento real e vontade política.
Segundo os próprios passageiros, gente da região, que faz esses trajetos como quem pega ônibus urbano, a resposta é sempre a mesma:
A política não deixa o Norte avançar.
E talvez seja isso mesmo.
O Norte do Brasil está sendo, sem dúvida, o meu lugar favorito dessa viagem.
Amei as pessoas. Amei os encontros. Amei a cultura. Amei a forma como a vida acontece aqui, apesar de tudo.
O problema nunca foi o povo.
Nunca foi a floresta.
Nunca foi o rio.
O problema é estrutural.
É de quem concentra a riqueza e distribui o sofrimento.
De quem garante conforto máximo para os seus e precariedade permanente para o resto.
É o mesmo Brasil de sempre, só que aqui ele aparece sem maquiagem.
O Norte me deu um novo norte.
Não apenas geográfico, mas existencial.
Um norte que aponta menos para onde chegar — e mais para o que precisa mudar.
E sigo navegando.
