Passei por uma cidadezinha no interior da Bahia e, pela janela do ônibus, vi algumas crianças tomando banho de borracha na rua. A água escorria sem pressa, formando pequenos rios improvisados que desapareciam na poeira quente do chão. Elas riam com aquele riso inteiro, riso que não calcula, que não economiza, que simplesmente acontece.
E então pensei:
Enquanto estou aqui dentro do ônibus, quantas crianças estão tomando banho de mangueira pelo Brasil agora?
Enquanto escrevo estas linhas, quantos casais estão se reencontrando depois de um longo tempo e se dando aquele milésimo primeiro beijo, não mais com a urgência do começo, mas com a profundidade de quem decidiu ficar?
Enquanto observo a paisagem correndo para trás, quantas pessoas estão se lançando de uma tirolesa, atravessando o ar por alguns segundos e sentindo aquela vertigem boa de estar vivo?
Enquanto penso na minha casa, quantos filhos estão sentados à mesa, desfrutando de uma comida preparada pela própria mãe, uma comida que talvez nunca vá parar num restaurante caro, mas que tem o tempero silencioso do cuidado?
A vida acontece numa simultaneidade que a gente raramente percebe.
Em algum lugar agora, alguém está recebendo uma notícia que muda tudo.
Em outro, alguém está apenas aprendendo a andar de bicicleta.
Há quem esteja chorando uma perda, e há quem esteja descobrindo um amor.
O mundo não pausa para que uma única história exista. Ele pulsa em milhões ao mesmo tempo.
Talvez a felicidade seja exatamente isso: não um lugar onde se chega, mas um movimento contínuo que corre paralelo à nossa distração.
Porque, enquanto nos preocupamos com o futuro ou ruminamos o passado, ela passa, às vezes discreta, às vezes barulhenta ao som de crianças tomando banho de borracha e pedindo apenas uma coisa:
Ser notada.
A felicidade não exige grandes viagens, nem acontecimentos extraordinários. Muitas vezes ela está na água fria de uma mangueira sob o sol da Bahia. Está numa gargalhada sem motivo. Está num prato simples servido ainda quente. Está no beijo repetido que ninguém fotografa.
Ela está perto.
Ela está longe.
Ela está acontecendo agora.
E talvez viver seja exatamente desenvolver essa habilidade quase esquecida, a de olhar pela janela da própria vida e perceber que, mesmo quando tudo parece comum, existe algo extraordinário acontecendo.
A felicidade corre ao nosso lado.
Basta ver.
Basta viver.
