O mundo continua o mesmo, independente dele girar, do ônibus poder parar, da chuva interromper a estrada ou de uma batida transformar quilômetros em horas imóveis.
O mundo segue, indiferente à nossa pressa.
Mas tente explicar isso para uma mãe.
Para a minha, por exemplo, o mundo gira em torno do forno e da carne que ela deixou assando para me receber. Embora eu já tivesse dado a previsão do tempo estimado de viagem, chegar às 21h, a mensagem chegou antes:
— Quanto tempo falta pra você chegar?
Não era apenas uma pergunta logística. Era uma pergunta carregada de afeto, dessas que medem distância em saudade.
Na cabeça dela, o ônibus deveria obedecer ao ponto da carne.
O trânsito deveria respeitar o dourar da gordura.
A estrada deveria colaborar com o tempero.
Ela acredita, com a convicção tranquila das mães, que a viagem iria se ajustar ao jantar de quem espera.
Mas o mundo real raramente respeita o tempo do amor.
Cheguei ao Rio às dez da noite. E chegar à noite — até na própria cidade — sempre traz um medo extra, uma tensão difícil de explicar. A cidade que deveria ser colo vira alerta. A rua que era familiar parece estrangeira.
Para completar, o Uber marcou cem reais numa corrida que normalmente custa vinte e oito. Aceitei sem pensar muito. Depois de tantos dias atravessando o Brasil, aprendemos que há momentos em que discutir preço é apenas prolongar o cansaço.
As ruas estavam alagadas. A chuva tinha tomado a cidade com uma pressa quase agressiva. Os semáforos estavam todos apagados e o trânsito tinha virado um grande improviso: buzinas, freadas, motoristas tentando adivinhar quem passa e quem espera. Um caos urbano onde cada cruzamento parecia uma pequena negociação pela sobrevivência.
Dentro do carro, olhando a água engolir o asfalto e os faróis refletindo nas poças como se fossem pedaços de outro céu, pensei que viajar não é apenas ir. É também suportar os pequenos abismos que existem entre chegar e finalmente descansar.
E, ainda assim, minha mãe seguia em casa preocupada com incontrolável.
Porque no mundo dela tudo já estava pronto.
A carne.
A mesa.
A espera.
Talvez o mundo não gire ao redor do forno dela.
Mas confesso: o meu sempre girou um pouco.
Porque depois de dias em rodoviárias, barcos, feiras, estradas e cidades desconhecidas, não existe sensação mais poderosa do que saber que há uma luz acesa, e alguém olhando o relógio, só para te ver entrar pela porta.
No fim das contas, o mundo pode até girar sozinho.
Mas é o amor de uma mãe que nos ensina exatamente para onde voltar.
