Eu fui de ônibus de São Paulo para Curitiba.
De Curitiba para Florianópolis.
De Florianópolis para Porto Alegre.
De Porto Alegre para Campo Grande.
De Campo Grande para Cuiabá.
De Cuiabá para Goiânia.
De Goiânia para Brasília.
De Brasília para Palmas.
De Palmas eu voltei para Goiânia, para então seguir até Porto Velho.
De Porto Velho fui para Rio Branco. Depois voltei para Porto Velho.
De lá, segui para Manaus.
De Manaus fui para Boa Vista.
E voltei para Manaus.
Depois vieram os rios.
Manaus para Santarém — de barco.
Santarém para Macapá — de barco.
Macapá para Belém — de barco.
E então a estrada voltou a me encontrar.
Belém para São Luís.
São Luís para Teresina.
Teresina para Fortaleza.
Fortaleza para Natal.
Natal para João Pessoa.
João Pessoa para Recife.
Recife para Maceió.
Maceió para Aracaju.
Aracaju para Salvador.
Salvador para Vitória.
Vitória para Belo Horizonte.
Belo Horizonte para o Rio de Janeiro.
E, por fim, do Rio para São Paulo.
Escrever assim parece simples.
Mas não foi uma lista.
Foi uma travessia.
Quantos quilômetros cabem dentro de um sonho?
Somando estradas, desvios, retornos obrigatórios e rios atravessados, o Feirou Brasil percorreu aproximadamente:
36 a 40 mil quilômetros.
Um número difícil de imaginar.
Então vamos trazer isso para o chão.
>Seria como fazer mais de 70 viagens entre São Paulo e Rio de Janeiro.
Ir, voltar. Ir de novo. Voltar outra vez.
Toda semana, por mais de um ano.
>Uma distância equivalente a sair de São Paulo e chegar até Nova Iorque… quase duas vezes.
Se essa viagem fosse uma linha reta sobre o mapa, eu teria atravessado o continente inteiro, e ainda teria estrada para começar a voltar.
> Quase três travessias completas do Brasil, do extremo Sul ao extremo Norte.
Não é só distância. É escala de vida.
… O tempo também vira geografia
Foram dias dentro de ônibus.
Noites chegando em rodoviárias vazias.
Madrugadas acordando com luz fluorescente.
Foram redes amarradas em barcos.
Motores roncando sem parar.
Banhos improvisados.
Silêncios longos olhando rios que pareciam não terminar.
Teve cidade onde fiquei horas.
Outras onde fiquei dias.
E lugares onde permaneci apenas o suficiente para sentir… e seguir.
Um dia a viagem deixou de ser sobre chegar. Passou a ser sobre continuar.
>>> O que ninguém vê quando olha um mapa
Um mapa mostra linhas.
Mas não mostra o cansaço.
Não mostra o corpo tentando entender em que cidade acordou.
Não mostra o cérebro confundindo nomes de estados.
Não mostra o peso da mochila depois de milhares de quilômetros.
E principalmente:
Não mostra as pessoas.
Os feirantes que me receberam como se já me conhecessem.
Os vendedores que dividiram suas histórias.
Os trabalhadores que acordam antes do sol para montar uma barraca.
Eu não atravessei apenas um país.
Eu atravessei vidas.
>>> Uma constatação silenciosa
Em algum momento da viagem, eu percebi algo:
Enquanto muitos medem a vida em anos,
eu comecei a medir a minha em quilômetros.
Cada estrada alongava meu olhar.
Cada feira ampliava meu entendimento do Brasil.
O país deixou de ser um conceito.
Virou rosto.
Virou voz.
Virou história.
Não foi só uma viagem
Repito: se toda essa distância fosse uma única estrada contínua, ela me levaria de São Paulo a Nova Iorque e ainda me daria quilômetros suficientes para começar a voltar.
Mas a verdade é que eu não voltei o mesmo.
Porque existe uma coisa curiosa sobre longas travessias:
Você parte achando que está cruzando o território.
Até perceber que é o território que está atravessando você.
O Feirou Brasil nunca foi apenas sobre mapear feiras.
Foi sobre mapear um país vivo, pulsante, trabalhador: um Brasil que acorda cedo, que monta sua banca, que luta diariamente para existir.
E depois de tudo isso, uma certeza ficou:
Essa não foi a viagem de um homem pelo Brasil.
Foi o Brasil passando por mim.
E, no fundo, eu sei: essa chegada não é um fim.
É só a primeira parada depois de uma distância chamada sonho.
