Tem um corvo no meu prédio.

Não sei o nome dele.

Na verdade, nem sei se é corvo mesmo, mas é assim que eu chamo.

Toda vez que eu encontro ele, é no mesmo ritual:

ou ele está descendo pra fumar

ou subindo depois de fumar.

No dia em que eu saí pro Feirou Brasil, ele estava ali.

Na porta do prédio.

Fumando.

Eu passei por ele com mochila, corpo em movimento, cabeça pronta para estrada.

Ele ficou.

Quarenta dias depois, atravessando o Brasil inteiro, passando por todos os estados, todas as capitais, milhares de quilômetros; eu volto.

E o corvo está lá de novo.

No mesmo lugar.

Fumando.

Talvez seja coincidência.

Talvez não seja.

Mas me bateu uma sensação estranha: como se ele fosse um guardião do ponto fixo e eu, o cara do ponto móvel.

Eu fui e voltei.

Ele ficou.

Eu atravessei o país.

Ele atravessou o maço.

Não é julgamento.

Não é comparação moral.

É só constatação de tempo.

Enquanto eu rodava o Brasil, ele descia pra fumar.

Enquanto eu voltava, ele subia depois de fumar.

E naquele instante eu entendi uma coisa simples, quase óbvia: algumas pessoas marcam a vida em viagens.

Outras marcam em pausas.

O corvo continua ali.

E eu sigo andando.