Uma vez eu li uma frase num muro que nunca mais saiu da minha cabeça:

“Você não sabia, mas aquela era a última vez que você estava jogando bola na rua.”

Abaixo da frase havia o desenho de um menino dando uma bicicleta, desses gols improvisados de rua, onde dois chinelos viram trave e qualquer bola vira sonho.

Aquilo me atravessou.

Porque é verdade: a gente nunca sabe quando está vivendo a última vez de alguma coisa.

Para um garoto, jogar bola na rua não é apenas brincar, é existir em estado de promessa. Todos os futuros cabem ali. Cada chute é uma possibilidade. Cada pessoa que passa pode ser um olheiro imaginário. Cada lance é como se fosse no Maracanã, com a arquibancada cheia, mesmo que só exista o barulho da vizinhança.

E então, um dia, acontece pela última vez.

Sem aviso.

Sem cerimônia.

Sem despedida.

Talvez seja assim com tudo.

Você não sabia, mas era a última vez que abraçava aquela pessoa.

Você não sabia, mas era a última vez que voltava àquela cidade.

Você não sabia, mas era a última vez que escrevia um texto antes de se tornar outra versão de si mesmo.

Ontem eu peguei o último ônibus do Feirou Brasil.

E, diferente da frase do muro, dessa vez eu sabia.

Sabia que aquele embarque tinha gosto de encerramento. Sabia que algo estava terminando. E, justamente por saber, veio uma saudade antecipada. Uma pergunta silenciosa:

Será que essa é a última vez que faço algo tão grandioso para mim?

A única certeza que tenho é que não.

Depois daquele ônibus, voltei para casa. Peguei o metrô como quem retorna de uma travessia longa demais para ser explicada em poucas palavras.

Passei a noite inteira acordando com as urticárias da dermatite atópica, me coçando como se o corpo ainda não tivesse entendido que a viagem tinha acabado. Banho, tentativa de dormir, mais coceira, mais inquietação. Há batalhas que continuam mesmo quando o destino final já foi alcançado.

E também pensei nisso: será que um dia vai existir uma última noite de coceira?

Talvez exista. Talvez não. Algumas dores simplesmente nos acompanham até virarem parte da paisagem.

No dia seguinte, fiquei na cama.

Eu tinha planejado sair para filmar uma feira em São Paulo logo cedo, mas o corpo pediu rendição. Tomei três remédios para conter a alergia e fui vencido por um sono pesado, desses que parecem ter o peso de um ônibus estacionado sobre o peito.

Então aceitei parar.

Aceitei descansar.

Aceitei que até quem atravessa um país precisa, às vezes, atravessar apenas o próprio silêncio.

Decidi que a última feira desta edição do Feirou Brasil seria na quarta-feira. E será diferente. Vou comprar na feira o almoço que vou preparar em casa. Um gesto simples, mas simbólico. Como se a viagem, depois de percorrer o Brasil inteiro, finalmente sentasse à mesa comigo.

O Feirou Brasil está chegando ao fim.

Fim como jornada física.

Nunca como ideia.

Porque projetos verdadeiros não acabam, eles mudam de forma.

Eu não sei exatamente quando virá o dia em que o Feirou será o aplicativo que imagino. O site que todo brasileiro vai abrir para encontrar a feira mais próxima. A plataforma que vai transformar a relação entre as pessoas e as feiras.

Hoje, ainda existe um espaço entre o “não ter nada” e o “ter tudo”.

Mas aprendi algo cruzando esse país: o futuro não chega de repente, ele vai sendo atravessado passo a passo.

Assim como aquele menino do muro não sabia que era a última pelada…

Talvez eu também não saiba qual foi a última vez que vivi uma vida sem o Feirou ocupar o tamanho que ainda vai ocupar.

O que eu sei é simples:

O dia há de chegar.