A viagem de dia para Manaus me deu uma certeza: eu não estou aqui por acaso.

E me trouxe uma pergunta que não sai da cabeça: por que meus olhos veriam tudo isso, por que meus ouvidos escutariam tantas histórias incríveis, por que meu nariz sentiria tantas notas da vida, se tudo isso fosse apenas para um dia acabar?

O caminho para Manaus me colocou frente a frente com a ideia da finitude.

Como experimentar tanto e aceitar que tudo termina?

Como atravessar o mundo desse jeito e não continuar, de outras formas, experimentando a vida?

A Amazônia não é paisagem.
A Amazônia é a vida pintada ao vivo.

Foram cerca de oito horas de absoluta estupefação.

O ônibus quase não balançou durante o dia — como se tivesse respeito pelo que estava ao redor.

Talvez à noite seja diferente.

Talvez a escuridão cobre o preço que a luz entregou como presente.

Os motoristas anunciaram a parada: Toca da Onça.

E então é lá que vamos comer e, quem assim desejar, vai beber água.

Eles próprios se apresentaram como personagens amazônicos: Pantera. Onça. Falcão.

Não era uma viagem de linha.

Era uma expedição.

Um safári silencioso sobre rodas.

Cruzar a Amazônia de ônibus pela BR-319 não é algo trivial.

Todos do Norte com quem conversei disseram a mesma coisa:

“Você é maluco.”

“É melhor ir de avião.”

“Paga mais caro, mas chega.”

A pergunta sempre vinha junto:

— Você prefere pagar três mil reais e chegar em Manaus, ou seiscentos para ficar preso no meio da floresta?

Hoje eu pagaria os três mil… para ficar preso aqui mesmo.

Porque há lugares que não querem ser atravessados rápido.

Querem ser sentidos.

Ouvidos.

Olhados sem pressa.

O Feirou Brasil segue.

O destino é Manaus.

Mas este texto não chega com o ônibus.

Ele fica.

Fica aqui, com minha cabeça no meio da floresta, com a certeza de que algumas viagens não são sobre chegar, mas sobre nunca mais ser o mesmo depois de passar.