Querendo ou não, o Feirou Brasil também foi uma viagem gastronômica.
Conhecer o Brasil é provar o Brasil.
E provar, quase sempre, é pelo sabor.
Passei por todas as capitais sem economizar no rango, sem pensar em dieta, sem calcular calorias, sem negociar com a vontade. Comi o que quis, quando quis e, principalmente, o que me ofereceram.
Me entreguei às comidas do caminho.
E hoje posso dizer com absoluta convicção: foi uma das experiências mais extraordinárias de toda a travessia. Não trocaria por nada.
Porque comer nunca é apenas comer.
Comer é uma cerimônia.
É sentar à mesa, ainda que a mesa seja uma banca de feira improvisada, e aceitar aquilo que o outro preparou. É confiar que aquela comida vai nos fazer bem. É colocar para dentro algo que nasceu do trabalho, da dedicação e da esperança de alguém.
Comer é, no fundo, um ato silencioso de fé no outro.
E talvez o Feirou Brasil tenha sido exatamente isso: uma viagem sobre acreditar nas pessoas.
Atravessei o país vendo milhares de brasileiros tentando vender alguma coisa. Gente acordando cedo, montando barraca, organizando mercadoria, chamando cliente, defendendo seu pedaço de mundo.
Gente querendo tocar a própria vida.
Gente querendo empreender.
Gente querendo simplesmente continuar.
Vi talento espalhado por todos os cantos. Produtos incríveis. Histórias fortes. Pessoas que fazem muito com quase nada.
E então uma pergunta começou a me acompanhar no retorno:
Será que eu tenho o que vender?
Será que eu tenho um produto?
Será que tenho um negócio?
Será que tenho algo que o mundo queira comprar?
Volto do Feirou Brasil com essa dúvida, mas também com uma certeza nova: eu tenho uma estrada.
E talvez isso já seja alguma coisa.
Também volto com uma sensação estranha, dessas que ninguém nos prepara para sentir.
Quando parti, havia uma esperança enorme. Um desafio quase impossível. Um sonho grande o suficiente para me puxar para frente todos os dias.
Agora que realizei… existe um pequeno vazio.
Não é tristeza.
Não é arrependimento.
É aquela vertigem silenciosa que aparece quando a gente chega ao topo de uma montanha e percebe que passou tanto tempo subindo que nunca pensou no que faria depois de chegar.
Durante 39 dias, meu sonho era caber dentro do Brasil.
Olhar para aquele mapa gigantesco e acreditar que ele poderia, de alguma forma, caber na palma da minha mão.
E coube.
Talvez rápido demais.
E é justamente essa rapidez que assusta. Porque quando um sonho termina, nasce uma pergunta inevitável:
E agora? Qual é o próximo?
Imagino que essa dúvida visite todo mundo que ousa sonhar grande.
Lembrei então da Última Ceia.
O último encontro de Jesus com seus discípulos não foi numa batalha, nem num milagre espetacular. Foi ao redor de uma mesa. Foi partilhando o pão. Foi comendo.
Um gesto simples, mas eterno.
Ali, naquele ato cotidiano, ele deixou um exemplo que atravessaria os séculos.
Foi inspirado por essa ideia que eu decidi fazer, simbolicamente, minha última ceia do Feirou.
Quis encerrar essa jornada com algo que eu pudesse mastigar devagar, engolir com consciência, como quem entende que, depois de tanto caminhar, a feira agora mora dentro de mim.
Porque mora mesmo.
Mora no cheiro do pastel quente.
No barulho das lonas sendo esticadas antes do amanhecer.
Na xepa gritada no fim da tarde.
Na conversa atravessada entre vendedor e freguês.
Na dignidade de quem vive do próprio trabalho.
A feira deixou de ser um lugar. Virou parte de quem eu sou.
O Feirou Brasil termina como viagem, mas está muito longe de terminar como ideia.
Espero que tudo o que foi feito continue vivo na internet, nas redes, nos registros, nas memórias. E que um dia alguém olhe para essa travessia e sinta vontade de seguir adiante.
De levar a feira ainda mais longe.
Porque a feira é movimento.
É resistência.
É começo diário.
Ela nasce cedo, todos os dias, muito antes da cidade acordar.
E só descansa depois do último cliente.
Depois da última venda.
Depois da xepa.
Talvez seja esse o maior ensinamento que trago comigo: enquanto houver feira, haverá futuro.
Haverá do que se alimentar.
