Entre Porto Velho e Manaus, a Amazônia não começa no rio. Começa na conversa.
Era pouco depois das seis da manhã quando decidi lavar minhas roupas numa lavanderia próxima à rodoviária de Porto Velho. O mapa no celular dizia: 500 metros. Uma distância curta, quase simbólica. Mas o dia ainda amanhecia escuro, chuvoso, com aquele silêncio pesado que só existe antes da cidade acordar de verdade. Resolvi perguntar aos mototaxistas se o caminho era seguro.
Antes mesmo da resposta, veio o preço.
— Quinze reais, chefe.
O dono da frase era conhecido como Tubarão — nome que não precisava de explicação. Quinze reais por quinhentos metros. Ri, contestei. Tubarão não riu de volta. Preferiu contar histórias: assaltos, abordagens, gente que “não voltou”. Histórias ditas com o prazer de quem vende medo como argumento comercial.
A conversa se alongou. Contei um pouco da minha estrada desde o Rio de Janeiro. Tubarão percebeu que eu não era exatamente um alvo fácil. Cedeu. Disse que dava pra ir a pé sim. No máximo, eu teria que botar um nóia pra correr.
Foi então que ele apareceu.
Um senhor descalço, surgido do nada, como se tivesse sido cuspido pela madrugada. Perguntou para onde eu ia. Respondi, sem muita vontade de papo: Manaus. Os olhos dele acenderam.
— De ônibus? Tá errado. Pra Manaus se vai de barco. O barco é a festa. É a experiência amazônica.
Falava com convicção. Disse que já tinha feito a viagem muitas vezes. E, como se fosse um argumento final, puxou a barra da calça e mostrou uma tornozeleira eletrônica. Um gesto silencioso, quase solene. Como quem diz: eu sei o que é liberdade.
Não segui o conselho. Ainda bem.
A viagem de barco para Macapá tem sido, sem exagero, a pior experiência logística desta jornada. Embarcar é um caos. Nos portos, homens brigam por prioridade, por serviço, por espaço. Ameaças são ditas em voz alta, facas parecem sempre a um passo de sair do bolso. É a mesma lógica dos transportes irregulares de rodoviárias e aeroportos: quem chega primeiro, explora primeiro.
O barco nunca sai na hora. Nunca. Uma hora de atraso para partir é o padrão. Duas horas para chegar, quase regra. Os próprios passageiros já sabem: se sair no horário, perde-se o barco. Cada porto repete o mesmo ritual de demora.
Dentro da embarcação, o tempo se dilata. A internet só aparece quando se passa perto de uma cidade. Fica-se cinco, dez horas completamente offline. A internet vendida a bordo é fraca, limitada, inútil para qualquer coisa além do básico. Perguntar como o tempo é contabilizado gera grosseria. Grosseira o suficiente para despertar o meu modo guerra — e uma esculachada coletiva que acabou sobrando para todo mundo.
A comida é triste. Seca, jogada em bandejas, talheres de plástico brigando com carne dura. O banheiro, embora constantemente “lavado” pela própria dinâmica do espaço, é claustrofóbico: metal por todos os lados, água escura do rio na privada, a sensação permanente de confinamento.
É impossível não pensar: isso se parece com uma prisão. Talvez por isso o senhor da tornozeleira seja um defensor tão apaixonado da viagem de barco para Manaus.
Comparativamente, o ônibus foi melhor. Não perfeito. Mas humano.
O que salva o barco — como quase sempre salva tudo no Brasil — são as pessoas. Passageiros cansados, reclamando juntos, dividindo histórias, solidariedade e ironia. Companheiros de destino. Exatamente como quem está, literalmente, no mesmo barco.
