Belém foi a única capital até agora que me deu raiva de ter ficado tão pouco.
Não raiva da cidade, raiva do tempo.
Belém é daquelas cidades que não se atravessam, se permanecem. Ela pede passo lento, olhar demorado, conversa atravessada no caminho. É uma cidade linda, com alma portuguesa escancarada na arquitetura, nos nomes, na forma como o tempo parece dobrar as esquinas. Tudo ali remete a Portugal de algum jeito, como se Belém fosse uma Lisboa tropical que resolveu se reinventar às margens do Amazonas.
Eu vi o Mercado do Peixe, o Mercado Azul, colado ao Ver-o-Peso. Sensacional. Daqueles lugares que você olha e já sabe: aqui tem história demais para ser só passagem. Queria muito ter entrado no Ver-o-Peso. Não só visto de fora. Queria ter caminhado por dentro, ouvido os pregões, sentido os cheiros, entendido o tamanho real daquele mercado que é, dizem, o maior da América Latina, e que não cabe em estatística nenhuma. Ele é maior porque é vivo.
Mas Belém me recebeu com o tempo contado.
E isso foi culpa minha.
Resolvi comprar a passagem de ônibus antes mesmo de chegar à cidade. Estava no barco e pensei que estava sendo eficiente: economizar o tempo da rodoviária, agilizar a saída, seguir para São Luís. A viagem até lá leva em média 16 horas, e eu queria muito manter o ritmo. Um dia em Belém, no dia seguinte já estar em São Luís, ir a uma feira, seguir em frente. A matemática era clara: uma cidade por dia.
O motivo também era claro: o Carnaval está chegando. E quando o Carnaval chega, as feiras param. Se eu estivesse na estrada durante o Carnaval, eu pegaria o pior dos mundos: transtornos, deslocamentos travados e nenhuma feira para mostrar. Eu não quero isso. Quero terminar essa travessia antes do Carnaval. Já fiz as contas. Dá. Mas só se eu acelerar.
O problema é que o barco atrasou cinco horas.
Quando comprei a passagem para as 18h30, eu não fazia ideia desse atraso. Resultado: desembarquei em Belém com cerca de três horas para fazer tudo. Tudo mesmo. Filmar feira, ir à academia tomar banho, atravessar a cidade e chegar na rodoviária.
Belém virou corrida.
Foi um Deus nos acuda.
Andar rápido numa cidade que pede calma é sempre frustrante. Você vê beleza demais e tempo de menos. Você quer ficar, mas precisa ir. Quer aprofundar, mas só dá para tocar a superfície.
Ainda assim, no meio da correria, tudo saiu com a qualidade que o Feirou Brasil vem trazendo. Porque a feira também é isso: pressa, improviso, movimento. A feira não espera. A feira acontece no ritmo da cidade, e Belém é intensa até quando corre.
Eu saí de Belém com a sensação rara de quem não conheceu o suficiente. E isso, curiosamente, é um elogio. Belém não se entrega fácil. Ela exige tempo, presença, permanência.
Ficou a promessa silenciosa: eu volto.
Da próxima vez, sem passagem comprada antes.
Sem relógio mandando mais que a cidade.
