Escrevo este texto parado.
Parado no meio do caminho entre Belém e São Luís, esperando obras na estrada. Obras que não aceleram o Brasil, apenas o travam. Obras que, historicamente, enriquecem poucos e mantêm muitos isolados. Obras que explicam por que viajar no Brasil ainda é um teste de resistência, não de mobilidade.
A distância terrestre entre Belém (PA) e São Luís (MA) é de aproximadamente 800 quilômetros.
Oito. Centenas. De quilômetros.
Agora, um exercício simples de comparação.
A distância entre Paris (França) e Londres (Inglaterra) é de cerca de 450 quilômetros. Quase a metade.
Mas o tempo de deslocamento entre essas duas cidades, usando o trem de alta velocidade (Eurostar), é de aproximadamente 2h15.
Entre Belém e São Luís, não há trem.
Não há ferrovia funcional para passageiros.
Não há integração real de modais.
O deslocamento terrestre, quando possível, leva 18 a 24 horas, dependendo de obras, chuvas, balsas, interrupções e do humor da infraestrutura. Quando não é possível, resta o barco — dias de navegação — ou o avião, inacessível para grande parte da população.
>>> Quando a Europa decidiu ligar países
O Eurotúnel, que conecta França e Inglaterra por baixo do mar, começou a ser construído em 1988.
As obras duraram 6 anos.
Foi inaugurado em 1994.
Um túnel submarino.
Escavado sob o Canal da Mancha.
Ligando dois países historicamente rivais.
Pouco depois, o trem de alta velocidade tornou Paris e Londres cidades “vizinhas”.
E o Brasil?
No mesmo período em que a Europa cavava um túnel sob o mar, o Brasil ainda tentava, e tenta até hoje, consolidar estradas básicas no Norte e Nordeste, especialmente no Maranhão e no Pará.
Rodovias federais que:
- ficam anos em obras
- são refeitas várias vezes
- consomem bilhões de reais
- e seguem interrompidas, perigosas ou incompletas
Segundo dados públicos amplamente divulgados ao longo das últimas décadas, obras de infraestrutura no Brasil custam, em média, de 30% a 50% a mais do que projetos equivalentes em países desenvolvidos, não por tecnologia, mas por:
- aditivos constantes
- atrasos artificiais
- corrupção estrutural
- desvios e superfaturamento
Enquanto isso:
- na França e na Inglaterra, dezenas de executivos, políticos e empresários foram presos, condenados e banidos por irregularidades em grandes obras públicas.
- no Brasil, investigações acontecem, escândalos surgem, mas as mesmas empresas continuam vencendo licitações, e as mesmas regiões continuam isoladas.
>>> A geografia da desigualdade
Não é a floresta que atrasa o Brasil.
Não é a distância.
Não é a chuva.
É a escolha política.
Cada estrada malfeita entre Belém e São Luís não é um erro técnico, é um projeto de poder.
Manter regiões isoladas concentra riqueza, controla fluxos e reduz oportunidades.
Enquanto isso, quem precisa circular:
- passa dias em barcos
- noites em rodoviárias
- horas parado em obras
E chega às cidades com tempo contado, poucos minutos para mostrar um Brasil que deveria estar em movimento.
O Feirou Brasil segue andando
Apesar disso, e talvez exatamente por isso, o Feirou Brasil segue.
Segue lento.
Segue cansado.
Segue minoritário.
Mas segue andando.
Porque parar seria aceitar que esse atraso é normal.
Porque andar é uma forma de denúncia.
Porque cada feira visitada, cada estrada percorrida, cada espera forçada expõe o mesmo problema:
👉 O Brasil não é atrasado. Ele é atrasado de propósito.
E enquanto obras seguirem enriquecendo os mesmos e isolando os de sempre, o país continuará grande no mapa, e pequeno no direito de ir e vir.
Mesmo assim, seguimos.
Mesmo poucos.
Mesmo devagar.
Porque o Brasil real ainda tenta andar, mesmo quando tudo conspira para mantê-lo parado.
