Belo Horizonte manteve o padrão de excelência dos encontros maravilhosos que têm marcado essa travessia do Feirou Brasil.
Antes mesmo de chegar à cidade, mandei uma mensagem para um amigo querido, Apoenam. Não para marcar um encontro, às vezes amizade não precisa de presença física, mas para pedir direção. Dicas. Caminhos. Aqueles atalhos invisíveis que só quem conhece a cidade pode oferecer.
A amizade, muitas vezes, é exatamente isso: alguém que ilumina o trajeto mesmo quando não caminha ao seu lado.
Ele foi direto:
— Você precisa comer o tropeirão do Beri.
Beri é o apelido carinhoso do dono da banca, conhecido como Berinjela. E lá fui eu, sem saber exatamente onde ficava, apenas andando pela feira como quem confia que as boas histórias sempre encontram quem está disposto a vivê-las.
E encontram mesmo.
Achei a banca quase por acaso, ou pelo tipo de acaso que só acontece quando a gente está disponível para o mundo.
Fui recebido com aquela generosidade mineira que só faz alarde quando gosta, e logo envolve. Já falei outras vezes nessa viagem: quando o primeiro encontro é bom, o dia inteiro se reorganiza ao redor dessa energia.
BH foi assim, uma sucessão de portas abertas.
A viagem de Vitória até Belo Horizonte foi noturna. Dessas em que o tempo não passa, ele simplesmente desaparece. Dormi em um estado suspenso e acordei já dentro da cidade, como se tivesse sido transportado.
E o acaso, mais uma vez trabalhando silenciosamente, me fez chegar justamente num domingo.
Dia da Feira Hippie.
Talvez a feira onde mais pessoas se interessaram pelo Feirou até agora.
Entre elas, Paulo Favaretto, que marcou de me encontrar por lá. Gravamos um vídeo completo, daqueles que não só mostram a feira, mas ajudam a entendê-la. Sua história, sua escala, sua pulsação.
Porque o Feirou não é apenas sobre ver.
É sobre compreender.
Sobre dar contexto ao que parece cotidiano, mas na verdade sustenta cidades inteiras.
BH foi, acima de tudo, uma coleção de belos encontros.
Mas foi também ali, depois de tantos quilômetros acumulados no corpo, que algo mudou dentro de mim.
Eu comecei a ceder.
Comecei a deixar que minhas vontades tivessem voz.
Na estrada entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, outra pequena cena me lembrou o quanto essa viagem já mora em mim.
Uma moça, aflita com a velocidade do ônibus, dizia que queria falar com o motorista. Olhava ao redor tentando entender como chegar até ele.
Usei então minha já extensa experiência de passageiro profissional de ônibus e avisei:
— Nesse modelo de dois andares não dá pra acessar a cabine por dentro. Só pelo lado de fora.
Também mostrei o comunicador, um pequeno interfone no bagageiro superior, que ela ainda não tinha percebido.
Ela agradeceu com um alívio visível.
Naquele instante entendi que, sem perceber, a estrada já tinha me ensinado seus códigos.
Paramos depois em um restaurante chamado Cabana, desses que parecem existir exatamente para viajantes cansados e famintos.
Entrei sem grandes expectativas, mas com uma fome honesta, profunda, quase emocional.
Enquanto eu ainda decidia como pagar por tudo que comi, um passageiro se aproximou e perguntou:
— Tem comida boa aí?
Respondi com naturalidade:
— Tem sim… já comi uma coxinha, um pão de batata com queijo, um espetinho de frango com bacon e um saquinho de doce de leite.
Ele arregalou os olhos.
Começou a rir.
— Gastou quanto?
Falamos o valor e rimos juntos — aquela risada cúmplice de quem reconhece um pequeno exagero quando vê um.
Minutos depois, observei de longe ele contando tudo para a namorada. Os dois se dobravam de rir, quase se apoiando um no outro.
E ali, vendo aquela gargalhada atravessar o salão, tive uma percepção simples e bonita: às vezes a gente vira a história engraçada da viagem de alguém — sem nem perceber.
Olhei para a sacola, para o estrago já anunciado no cartão, e pensei sem culpa: se é para estar frito… que seja bem alimentado.
Porque a verdade é que a conta já tinha passado dos oito mil reais. Um número que pisca na consciência como um alerta silencioso.
Vou precisar arrumar um emprego logo.
Mas naquele momento também entendi outra coisa — talvez mais importante: não dá para atravessar o Brasil negando todos os desejos.
Algumas viagens não pedem rigidez.
Pedem humanidade.
Então tomei uma decisão íntima, quase um acordo comigo mesmo: se eu tiver vontade de comer, vou comer. se tiver vontade de parar, vou parar, se algo aquecer o coração no meio do caminho — eu não vou recusar.
Essa viagem é longa demais para ser vivida pela metade.
E talvez esse seja um dos sinais mais claros de que estou voltando para casa.
O Rio de Janeiro me espera — minha casa número um.
São Paulo também — minha casa número dois.
Só de pensar nisso, algo dentro de mim desacelera.
Agora ficou mais fácil enxergar o que é bom.
Agora ficou mais fácil entender que o fim da viagem não é apenas um retorno geográfico.
É também um retorno para mim.
E sigo.
Com o corpo cansado, com a alma acesa, e — finalmente — em paz para atender minhas próprias vontades.
