O único lugar em que eu realmente me fudi de frio nessa viagem inteira foi no trecho de Manaus para Boa Vista.

Esse ônibus da Amatur parecia um freezer ambulante. Sem exagero. Devia estar fazendo algo próximo de menos dez graus lá dentro. Um frio desnecessário, agressivo, desses que não deixa dormir, não deixa pensar e não deixa o corpo relaxar.

Na parada, eu desci e fui falar com o motorista:

— Tá muito frio, meu irmão.

Ele respondeu, na maior naturalidade:

— Mas quem trouxe cobertor é pra isso, pra quem trouxe cobertor.

Eu ri e devolvi:

— Não tô falando por mim não. Pra mim esse frio até tá bom. Tô falando da senhora aí do meu lado… acho que ela já faleceu. Depois vocês pegam o corpo.

Ele caiu na risada, entendeu o recado e falou que ia “dar uma esquentada”.

Não deu.

O frio seguiu soberano do início ao fim da viagem entre Manaus e Boa Vista. Um frio que não combina com a Amazônia, não combina com o Norte, não combina com a lógica — mas combina muito com certos ônibus brasileiros.

Quando finalmente chegamos, por volta das 6h50 da manhã, ninguém precisou de aviso. Não tinha placa, não tinha informação dizendo “Boa Vista”. Mas todos os passageiros desceram — e eu desci junto.

E ali aconteceu algo curioso: quando coloquei o pé fora do ônibus, senti como se estivesse renascendo.

O calor de Boa Vista me devolveu à vida.

O corpo destravou.

O sangue voltou a circular com vontade.

Foi alegria pura chegar aqui. Alegria física, concreta, sentida na pele.

Agora começa a missão em Boa Vista. Quinta-feira é um bom dia de feira por aqui. Já vi que tem pelo menos três ou quatro acontecendo hoje. A ideia é resolver tudo ainda hoje: feira, conversa, registro, entendimento da cidade.

E depois… Macapá.

Macapá é outro desafio. Talvez o maior até agora. Pelo que todo mundo fala, não existe um caminho simples. Não tem ônibus direto. É uma das capitais mais isoladas do país.

Então o plano é o de sempre: ir chegando mais perto. Encontrar uma rota intermediária. Perguntar. Errar. Ajustar.

O Feirou Brasil segue assim: entre extremos de frio e calor, entre ônibus congelantes e cidades acolhedoras, sempre procurando a feira — porque onde tem feira, tem vida acontecendo, tem a cidade inteira.

Boa Vista começou no choque térmico.

Vamos ver como ela termina.