Na espera da noite na rodoviária de Brasília, a caminho de Palmas (TO), eu me vi diante de dois retratos muito distintos — e, ao mesmo tempo, profundamente conectados — do Brasil real.
Não eram mapas de estrada.
Eram mapas de fala.
Um deles era um PCD — vou chamá-lo assim, como ele próprio se definiu diversas vezes. Ele é conhecido nas redes sociais, viaja o Brasil inteiro e, segundo ele, teve um problema neurológico causado no parto pelo uso do fórceps. Disse que isso lhe garante passagens gratuitas de ônibus por todo o país. Estava em Brasília porque seu benefício havia sido cortado.
O outro era um eletricista de Rio Preto (SP), nascido na Bahia, um homem simples, trabalhador, ainda em adaptação ao mundo moderno como ele se apresenta hoje — na minha leitura, pelo menos.
A conversa começou como tantas outras em rodoviárias: histórias de estrada, de vida, de sobrevivência. Mas, à medida que os temas avançaram, algumas falas passaram a gerar incômodo.
Em determinados momentos, mulheres que estavam na sala de espera exclusiva — uma sala VIP daquela companhia — se levantaram e saíram. Preferiram um lugar pior fisicamente do que permanecer ouvindo certas falas que constrangiam não só a elas, mas também a mim.
Houve comentários sobre mulheres, sobre estética, sobre corpo.
Houve desprezo verbalizado.
Em um dos momentos mais embaraçosos, falava-se com dureza sobre pessoas acima do peso. Um deles descrevia um parente como “podre”, “enterrado na gordura”, “sem cuidado nenhum”. O detalhe cruel: havia ali, na mesma sala, um rapaz claramente acima do peso, comendo seu salgado em silêncio, ouvindo tudo.
A cena doeu.
Não por maldade explícita.
Mas por falta de letramento emocional.
Eu não vi ali pessoas más.
Vi pessoas boas, limitadas por uma ausência profunda de educação para a convivência.
O brasileiro mais simples — e isso não é crítica, é constatação — ainda não desenvolveu plenamente a percepção empática do impacto da própria fala sobre o outro. Não porque não queira. Mas porque nunca foi ensinado a olhar para além de si.
É um atraso que não nasce da crueldade.
Nasce da exclusão.
Curiosamente, mesmo nessas falas duras, havia filtros.
Havia pausas.
Havia tentativas de se controlar.
Isso me diz muito.
Diz que essas pessoas já passaram por rejeições suficientes para saber, ainda que intuitivamente, que certas coisas não devem ser ditas. Falta repertório, não falta humanidade.
E aí vem o dilema: interromper? corrigir? confrontar?
Nem sempre é possível.
Nem sempre é produtivo.
Às vezes, o silêncio também educa.
Às vezes, um olhar, uma expressão, um desconforto visível já planta uma semente.
A educação da convivência é um processo.
Um despertar lento para as diferenças.
Uma maturidade que chega — porque precisa chegar.
O Brasil real não é feito só de estradas e capitais.
É feito dessas salas de espera.
Dessas conversas atravessadas.
Dessas falas imperfeitas.
São dois mapas convivendo no mesmo território: o mapa do que somos e o mapa do que ainda precisamos aprender a ser.
