No hostel No Meio do Mundo, em Macapá, eu finalmente dormi numa cama.

Pode parecer pouco. Pode parecer luxo. Mas, depois de dias dormindo em rede de barco, em assento de ônibus, em rodoviária e em qualquer intervalo possível do corpo, dormir numa cama virou quase um choque cultural.

Eu estava tanto tempo sem deitar de verdade que meu corpo simplesmente não soube o que fazer com aquilo.

Dormi em cima da minha própria mão.

Acordei com a mão completamente dormente, travada, dolorida. Não mexia direito. E o detalhe é que não era qualquer mão: era justamente o pulso que eu já quebrei num acidente de moto. Um pulso que já tem pouca mobilidade, que não gosta de ser forçado para trás — e foi exatamente isso que aconteceu. Passei a noite inteira pregado em cima dele, dobrado num ângulo que não perdoa.

Desde então, sigo balançando a mão dentro do ônibus, tentando fazer a dor ceder, tentando avisar o corpo que está tudo bem, que não é mais rede, que não é mais balanço de rio.

Mas o corpo demora a entender.

Na noite seguinte, já de volta ao ônibus, depois de tantos dias dormindo em barco, aconteceu outra coisa curiosa: eu sonhei o tempo inteiro com o barco andando na velocidade do ônibus.

Eu dormia no asfalto, mas a cabeça estava no rio.

Cada batida do ônibus na estrada virava, no sonho, o barco afundando. Como um submarino desgovernado. A sensação era de que o barco estava a 200 km por hora, mergulhando a cada solavanco. Um sonho estranho, meio engraçado, meio aflito. O tipo de sonho que só acontece quando o corpo ainda não sabe onde está.

Essa viagem também é sobre isso: aprender a dormir de novo.

Às vezes na rodoviária.

Às vezes no ônibus.

Às vezes no barco.

Quase nunca numa cama.

E quando a cama aparece, ela não vem como descanso imediato. Ela vem como estranhamento. O corpo, acostumado a se adaptar ao improviso, demora a confiar no conforto.

Dormir, nessa travessia, não é pausa.

É mais uma etapa do caminho.

E o corpo — cansado, marcado, em movimento — vai aprendendo aos poucos que o Brasil não é só estrada, rio e feira.

É também esse estado entre o sono e o deslocamento, onde até descansar exige adaptação.

No Feirou Brasil, até dormir faz parte da jornada.