Já aqui na academia Smart Fit de Santana, no distrito do Amapá colado a Macapá — onde fica o porto —, estou eu malhando enquanto escuto grilos cantando do lado de fora. Cri, cri, cri. O som entra pela parede como se a cidade estivesse respirando. É curioso pensar que esta é uma das melhores Smart Fits em que já estive: nova, completa, melhor do que muitas de São Paulo ou do Rio. Uma academia de primeiro mundo, no meio de um Brasil que vive realidades completamente opostas ao mesmo tempo.

O ar-condicionado não está tão forte. Aqui as pessoas parecem gostar de malhar no calor. Eu suo, penso, e deixo a mente viajar de volta para o barco.

A viagem pela Amazônia não sai do corpo fácil. Ela fica. Fica nos músculos, na cabeça, no estômago. Fica na lembrança dos garotos ribeirinhos seguindo o barco pelo rio, nadando atrás de bolachas jogadas pelos passageiros. Uma cena que parece bonita à distância, mas que carrega uma pergunta incômoda: por que aquelas crianças precisam disputar biscoito no meio do rio?

No barco, eu conheci famílias inteiras. Tive que me adaptar a tudo: ao banheiro, à rede, ao balanço constante, ao cheiro do diesel, ao barulho do motor que nunca para. Dormi ao lado de dois novos amigos, cada um representando um Brasil completamente diferente.

À minha esquerda, Wagner, um profissional de sistemas de segurança e monitoramento. Um cara que roda o Brasil dando treinamentos técnicos. Já esteve em São Paulo, em Garça, em Marília. Ele atravessa estados implementando sistemas que vigiam, controlam, observam. Volta agora de Porto Velho, onde foi chamado para mais um trabalho.

À minha direita, Pedro. Um rapaz jovem, silencioso, atento. Ele passou quase toda a viagem sem falar muito sobre si. Só no final, quando o barco já se aproximava do destino, ele me contou a verdade: trabalha em um garimpo clandestino em Roraima, numa região próxima à fronteira com a Guiana. Um garimpo que havia sido recentemente invadido pela polícia. Máquinas queimadas. Estruturas destruídas. Seis meses de trabalho interrompidos.

Ele me disse que conseguiu, sim, trazer algumas gramas de ouro.

Falou baixo. Falou tarde. Falou só quando sentiu que podia confiar. Talvez tenha falado porque percebeu que eu também estava vivendo uma travessia. Uma aventura diferente da dele, mas igualmente intensa. Talvez ele tenha guardado essa história como se guarda algo precioso — não só o ouro, mas a própria dignidade.

Aqui, agora, na Smart Fit de Santana, eu penso nisso tudo enquanto levanto peso. De um lado, um homem que vive da tecnologia, do monitoramento, do sistema formal. Do outro, um rapaz invisível, que trabalha num lugar que oficialmente não existe, e que não pode nem dizer em voz alta o que faz para sobreviver.

Antes de ir embora, ele me apresentou à mãe, que foi buscá-lo no porto. Eu olhei para ela e disse, com absoluta sinceridade:

“Parabéns. Você tem um ótimo filho. Um rapaz trabalhador, educado, gente boa.”

Talvez isso seja o máximo que eu possa fazer agora. Talvez esse seja o ouro que eu consigo tirar dessa viagem: escutar, respeitar, registrar.

Essa travessia pela Amazônia não foi sobre conforto, turismo ou paisagem bonita. Foi sobre conviver, mesmo que por pouco tempo, com pessoas que carregam o Brasil nas costas de formas muito diferentes. Foi sobre entender que o país não é um discurso, é um corpo em movimento — suado, cansado, desigual.

Entre o grilo que canta do lado de fora da academia e o ouro escondido que cruza rios sem nome, sigo tentando dar sentido a tudo isso. Não como quem explica o Brasil, mas como quem atravessa.