Já estou cansado de dizer que estou cansado, então esse assunto está superado. O que importa agora é o caminho — e, principalmente, as decisões pequenas que definem se o caminho anda ou trava.
Cheguei em Natal por volta das sete da manhã. A cidade me recebeu com um nascer do sol bonito demais, daqueles que parecem grandes de propósito. Caminhei da rodoviária até a Smart Fit, passando pelas torres de energia eólica, hélices girando enquanto a cidade ainda acordava. Um cenário que mistura vento, futuro e litoral. Um Brasil que se move mesmo quando parece parado.
Depois do banho e de organizar a cabeça, fui tentar resolver o próximo passo da viagem: João Pessoa.
A passagem só existe em uma empresa: Companhia Progresso. Fui direto ao guichê. Vazio. Perguntei para o pessoal da Guanabara. Eles explicaram que os atendentes da Progresso estavam na partida do ônibus e que, quando estão no embarque, abandonam o guichê. Só voltam depois que o ônibus sai. Ou seja: era esperar ou improvisar.
Enquanto isso, comecei a olhar os horários. João Pessoa é perto. Três, quatro horas de viagem. Em teoria, isso deveria facilitar. Na prática, complica.
Se eu sair às dez da noite, chego duas da manhã e fico largado na rodoviária, esperando o dia nascer. Se eu sair à tarde, chego cedo demais para ter feira. Se eu decidir dormir em João Pessoa, entra mais um custo, mais uma parada, mais uma quebra de ritmo. E o ritmo agora importa muito.
O Nordeste muda a lógica da viagem. As distâncias são menores, mas as decisões ficam mais delicadas. Antes, eu atravessava estados inteiros em um único deslocamento. Agora, cada capital exige um cálculo fino: horário, feira, sono, orçamento, fluxo.
É curioso como viagens mais curtas exigem mais estratégia do que viagens longas.
Fiquei ali, entre um guichê vazio e outro cheio, pensando. Pensando não só em João Pessoa, mas em como seguir daqui pra frente. Porque o Feirou Brasil não é uma linha reta. É uma sequência de escolhas feitas em rodoviárias, portos, calçadas e academias.
Por enquanto, João Pessoa segue como dúvida. Mas uma coisa é certa: eu vou achar um caminho. Sempre acho. Nem sempre o melhor, nem sempre o mais confortável, mas o possível. E o possível, nessa viagem, já é muito.
Sigo andando.
Mesmo quando o guichê está vazio.
