E você é o do barco que olha para a terra.

E você é o da terra que olha para o barco.

E você é o do avião que olha para o chão.

E você é o do chão que olha para o avião.

E você é o da tela que olha para a rede.

E você é o da rede que olha para a tela.

E você é o do texto que olha para o leitor.

E você é o leitor que olha para o texto.

Às vezes somos uns.

Às vezes somos outros.

Uns ou outros, há que se seguir.

Belém passou rápido demais.

São Luís foi num pulo.

Teresina foi o mafuá.

E eu confesso: estou exausto.

O cansaço mental de me deslocar, entrevistar, gravar, editar — e ainda escrever — começa a pesar. Escrever me exige muito. Tenho apego por cada palavra. Enquanto escrevo, eu leio. Enquanto leio, eu critico. E, nesse vaivém, acabo ocupando dois lados ao mesmo tempo.

Não há tempo para tantos papéis.

E, muitas vezes, o papel de escrever fica para depois.

Mas eu queria registrar tudo.

Porque a imagem mostra —

e o texto sublinha.

No fim, tenho cada vez mais certeza de que estou documentando o Brasil mais brasileiro que existe. O povo na sua forma mais bruta, genuína, viva. Um Brasil que não pede licença, que trabalha, que ri, que sofre, que segue.

Teresina me levou direto para a memória. Para a minha vida em mercados populares. Para os bichos andando entre as pessoas. Para os túmulos de amor espalhados pelo cotidiano. Para essa mistura de sobrevivência e afeto que só a feira tem.

Cada feirante com quem converso merecia um livro.

Ou um documentário.

Ou um filme.

São heróis sem placa. Protagonistas sem roteiro. Histórias em movimento.

Espero, de verdade, que o Feirou alcance o que eu imagino.

Popularidade com propósito.

Espero conseguir chegar a milhões de pessoas.

Não por vaidade.

Mas porque as pessoas que estão no Feirou merecem ser vistas.

Vale a pena mostrar esse Brasil.