Peguei um barco de Manaus para Santarém sabendo que dali ainda viria Macapá. Sabendo, mas não entendendo completamente. Porque algumas experiências só se revelam quando o corpo entra nelas.
A primeira lição veio antes mesmo do barco sair: aqui, cada um leva a própria rede. Eu não sabia. Achei — ingenuidade minha — que a rede fazia parte do barco. Não faz. Rede é responsabilidade individual. Tive que sair correndo e comprar uma numa lojinha de artesanato ali em frente ao porto. Quarenta reais. Uma rede simples, bonita, aparentemente resistente. Talvez ela volte comigo. Talvez vire memória física dessa travessia.
O barco se chama Golfinho. Estava previsto para sair às 10h da manhã. Às 11h08, ainda estávamos parados. Um atraso de mais de uma hora. Em ônibus, em avião, atrasos acontecem. Vinte minutos. Trinta. Uma hora já muda o humor do corpo. Aqui, o tempo funciona diferente. Não há painel explicando, não há aviso. O barco sai quando sai. E pronto.
No barco, o ritual é simples: você escolhe um canto, amarra sua rede e aquele passa a ser o seu território. Um território frágil. Porque logo alguém amarra outra rede do seu lado. E outra. E mais outra. Até que não sobre espaço entre corpos, tecidos, balanços. As redes se encostam, se chocam, se misturam. É apertado. Muito apertado.
Visualmente, é bonito. Redes coloridas por todos os lados, como bandeiras improvisadas de um país que se desloca pelo rio. Esteticamente, há algo de poético. Na prática, há pouco espaço, pouco silêncio, pouca individualidade.
O barulho do motor é constante. Alto. Ensurdecedor. Falar alto não resolve. Pensar exige esforço. Eu até pensei em falar do Feirou ali, puxar conversa, contar da viagem, das feiras. Mas não faz sentido. Ninguém ouviria. Às vezes, o Brasil pede escuta. Outras vezes, pede silêncio.
O barco tem banheiros — algo em torno de dez. Para a quantidade de gente, é pouco, mas estão limpos. Isso importa. Numa viagem de um dia e meio até Santarém, cada detalhe conta.
Aqui, tudo acontece devagar. O rio dita o ritmo. Não existe pressa quando o caminho é líquido. O atraso de uma hora e oito minutos começa a parecer irrelevante diante de uma travessia que dura dias.
Essa não é uma viagem confortável. Não é turística. É logística. É deslocamento. É resistência. É o Brasil profundo se movendo como pode, do jeito que dá.
Enquanto o Golfinho ainda não parte, redes seguem sendo amarradas. Pessoas seguem chegando. O espaço segue diminuindo. O motor segue roncando. E eu sigo aqui, entendendo que atravessar o Brasil por dentro exige aceitar o desconforto como parte do caminho.
Porque para chegar a Macapá, antes é preciso aprender a esperar.
E aprender a esperar, aqui, também é parte da viagem.
