Hoje é domingo, 25 de janeiro de 2026.
Estou em Santarém, no Pará, dentro do barco São Bartolomeu.
Esse porto é mais do que um ponto no mapa: é uma conexão obrigatória entre Manaus e o meu destino final, Macapá, no Amapá.
Eu cheguei a Santarém no sábado, vindo de Manaus, com uma missão simples no papel: desembarcar até as seis da tarde e pegar o barco que sairia direto para Macapá no mesmo horário. Mas, como essa viagem tem me ensinado repetidamente, o Brasil real raramente segue o horário impresso.
O barco atrasou.
E, com isso, o barco para Macapá partiu sem mim.
A consequência foi imediata: ou eu saía do barco e pagava uma diária de hotel, ou ficava ali mesmo, na rede, esperando o próximo dia. Preferi ficar. Não por conforto, mas por estratégia. Foi inclusive uma sugestão do capitão — um sujeito correto, solícito, que me tratou com respeito, autorizou gravações na cabine e até trocou contato comigo por WhatsApp.
O capitão chegou a sugerir algo mais: sair à noite, conhecer a orla de Santarém, tomar uma, dar uma volta pela cidade. Agradeci, mas recusei. Não conheço Santarém. Não conheço profundamente o capitão. E, depois de tantos dias na estrada, aprendi a respeitar meus próprios limites. Às vezes, prudência é ficar parado.
Dormir no barco foi relativamente tranquilo — até não ser mais.
Por volta das quatro da manhã, algo mudou.
Ouvi movimentação estranha.
Vi jovens — pareciam moleques, no máximo vinte e poucos anos — pulando para dentro do barco. Camisas enroladas no rosto, estilo ninja, andando de um lado para o outro com pedaços de pau nas mãos. Não era gente embarcando normalmente. Era outra coisa. Uma presença que não combinava com o horário nem com o contexto.
O corpo entra em estado de alerta rápido nessas horas.
A única atitude possível foi ficar em pé. Tirei o chinelo, fiquei atento, preparado. Não havia muito o que fazer além disso. Não houve confronto. Não houve fala. Apenas vigilância. Um tipo de medo silencioso, que não explode, mas ocupa tudo.
Passado o pior, amanheceu.
Agora estou oficialmente embarcado no São Bartolomeu, que segue para Macapá — mas só às seis da tarde. Mais um dia de espera. Mais horas parado, olhando o rio, lidando com a sensação de estar sempre um passo atrás do relógio.
Essa travessia não é turística.
Ela é logística.
Ela é resistência.
Chegar a Macapá exige aceitar atrasos, conexões improvisadas, noites mal dormidas e decisões feitas no limite entre o risco e a cautela. Não é sobre pressa. É sobre persistir sem se perder.
O Feirou Brasil segue assim: entre rios, redes, atrasos e escolhas difíceis.
E enquanto o barco não parte, eu fico aqui.
Esperando.
Atento.
Sabendo que cada quilômetro até Macapá está sendo conquistado do jeito mais brasileiro possível: no improviso, na paciência e na insistência.
Às seis da tarde, o rio decide de novo.
Enquanto espero o horário da partida, percebo que não sou o único em estado de alerta.
Tem um cachorrinho tremendo no barco. Não sei se é de frio, de medo ou dos dois. Ele anda devagar entre as redes, observa tudo com cuidado, como quem também não sabe exatamente onde está nem para onde vai.
Em determinado momento, ele se aproximou de mim. Veio cheirar. Parou. Ficou ali.
Sentiu, de algum jeito, que eu não ofereço perigo.
Talvez porque eu também esteja assim: deslocado, atento, tentando não ocupar mais espaço do que o necessário.
Às vezes, em viagens longas, a gente cria alianças silenciosas — até com quem não fala a mesma língua.
Seguimos nós dois aqui, esperando o mesmo barco sair.
Cada um com seus medos.
Cada um tentando atravessar do jeito que dá.

