>>> Quando a viagem entra em contagem regressiva
Fortaleza me recebeu vermelha.
Não sei exatamente por quê. Talvez porque eu também já esteja no vermelho.
Essa viagem tem sido muito mais dispendiosa do que parece quando vista de fora. Mesmo gastando o mínimo possível, o básico já custa caro. Em cada capital existe um gasto inevitável: deslocamento. E deslocamento, hoje, significa Uber. Não tem muito para onde correr. Em média, uns 100 reais por cidade só para conseguir ir e voltar das feiras, da rodoviária, de onde dá para tomar um banho.
Soma-se a isso as refeições — quase sempre simples — e aquilo que eu como na própria feira, porque faz parte do ritual, da conversa, da troca. No fim das contas, dá algo em torno de 200 reais por capital, sem luxo algum. A isso se soma a passagem, que raramente sai por menos de outros 200 reais. Chutando baixo, cada cidade custa perto de 400 reais.
Multiplica isso por 27 capitais.
Fortaleza, então, me recebeu vermelha porque agora a conta está visível. E porque entrei oficialmente em contagem regressiva. Faltam dez capitais. Dez. Nove. Oito. E acaba. O fim começa a aparecer no horizonte, e com ele vem a urgência.
Cheguei em Fortaleza ainda de madrugada e, pela primeira vez em dias, decidi parar. Não parar de viajar, mas parar de correr. Eu precisava de um ponto de apoio. A ideia é simples: Fortaleza como base antes de apertar o ritmo de vez. A viagem daqui até Natal é o último trecho realmente longo antes de entrar numa sequência de capitais mais próximas, com deslocamentos de duas, três horas. Se tudo der certo, dá para fazer mais de uma cidade por dia.
E isso não é capricho. É estratégia.
O carnaval está chegando. E estar na estrada durante o carnaval é pedir para enfrentar engarrafamentos, preços inflacionados, feiras desmontadas e um Brasil completamente fora do eixo normal. Eu não quero isso. Quero terminar antes.
Por isso, procurei uma pousada. Nada sofisticado. Apenas um lugar para deixar as coisas, tomar um banho e respirar por algumas horas. Encontrei a Pousada São José. Muitas imagens de São José espalhadas pelas paredes — muitas mesmo. Um quarto ruim, sinceramente ruim. Mas um recepcionista de uma simpatia tão grande que conseguiu, sozinho, melhorar a experiência inteira.
Às vezes é isso. A estrutura é precária, mas o humano sustenta.
Vou ficar aqui apenas algumas horas. Cheguei por volta das seis da manhã e saio às dez. É tempo suficiente para fazer o básico: deixar as mochilas, seguir para a Feira da Parangaba, voltar, tomar um banho e pegar o próximo ônibus.
Hoje é domingo. Smart Fit não rola. A academia abre tarde e fecha cedo, e eu não posso ficar refém disso. Então o plano é simples e direto, como a própria estrada tem sido.
Na recepção, o senhor me disse com um sorriso tranquilo que a feira da Parangaba é animada. Disse como quem garante, não como quem vende. Vamos ver.
Fortaleza não é pausa.
É ajuste.
É recalcular rota.
É aceitar que a viagem cobra — no corpo, na mente e no bolso.
Mas seguimos. Porque agora falta pouco.
