Voltar para a rodoviária de Porto Velho, depois de Rio Branco, para seguir rumo a Manaus, foi daqueles intervalos inesperados que a estrada oferece — e que dizem mais sobre o Brasil do que muita estatística.
O tempo de conexão virou oportunidade: lavei toda a roupa, fui à SmartFit, malhei, tomei banho, reorganizei o corpo e a cabeça. Voltei limpo para a rodoviária. E foi ali, naquele espaço onde todo mundo está indo, vindo ou esperando, que apareceram o Homem-Aranha e o Thor.
Ou talvez não fosse o Thor.
Segundo ele mesmo, ainda não sabe se é Thor, He-Man ou Hulk Hogan.
Segundo o Homem-Aranha, com certeza era o Hulk Hogan.
Rimos. E ficamos ali conversando.
O Homem-Aranha tem 50 anos. É capoeirista. Trabalhou muitos anos na Coca-Cola. Se aposentou por um problema no coração e, por isso, tem direito a passagem gratuita para rodar o Brasil. Em vez de ficar parado, decidiu se movimentar.
Comprou uma fantasia do Homem-Aranha na 25 de Março.
Começou a se apresentar em praças, rodoviárias, locais de grande fluxo.
Foto com criança. Alegria com família. Um dinheiro honesto no fim.
Quando contou a ideia para um primo em Recife, ouviu o clássico:
“Isso não vai dar em nada. Ninguém gosta disso.”
Hoje, ele vive disso.
Disse que rodar o Brasil fantasiado salvou sua saúde mental.
Saiu de uma depressão profunda.
Conseguiu dinheiro para comprar uma casa no Recife.
Para outra em Manaus.
E segue viajando, cidade em cidade, acreditando na própria ideia.
O Thor — ou He-Man, ou Hulk Hogan — carrega uma caixa de som. Ainda não sei a história dele. Ainda vou saber. Essas histórias nunca vêm todas de uma vez.
O que ficou claro é outra coisa.
Existe um Brasil que se reinventa fora do emprego formal, fora do roteiro tradicional, fora da lógica de sucesso que vendem para a gente. Um Brasil que cria saída com o que tem: uma fantasia, um sorriso, uma presença, um corpo disponível para estar no mundo.
De certa forma, é muito parecido com o Feirou.
Rodar o Brasil.
Encontrar pessoas.
Criar valor onde dizem que não tem.
Levar alegria, encontro, circulação.
E, no processo, se salvar um pouco também.
A rodoviária segue sendo esse lugar mágico e duro ao mesmo tempo. Onde todo mundo parece perdido, mas muita gente está, na verdade, se encontrando.
E eu sigo atento.
Porque o Brasil real não está só nas feiras.
Ele também aparece vestido de Homem-Aranha, discutindo se alguém é Thor ou He-Man, no meio de uma rodoviária em Porto Velho, enquanto a vida segue acontecendo.
