Cheguei em Manaus sob um tremendo pé d’água.

E saí com um baita toró.

Nada fora da previsão do tempo. Aqui é inverno — mesmo que o calendário diga verão. No Norte, a chuva tem outro nome, outro ritmo e outra presença. E talvez seja por isso que Manaus seja assim: intensa, quente, viva.

Quente no clima.

E ainda mais calorosa no povo.

Desde o ônibus, Manaus já se apresentava. Nas conversas, nos encontros improváveis, nas histórias cruzadas. Conheci o ciclista Graton ainda na estrada, conheci outros manauaras antes mesmo de pisar na cidade. Todos falavam de Manaus com orgulho e afeto. E não era exagero.

Chegar a Manaus por terra não é simples.

Foram dois dias sacolejando no ônibus, atravessando a Amazônia, enfrentando distância, barro, floresta e silêncio. Mas ao chegar, a cidade se impõe.

Manaus é grande. Muito grande.

Foi a única cidade dessa viagem em que senti algo parecido com São Paulo. Não pela estética, mas pela escala. Pela sensação de metrópole. Pela energia urbana pulsando no meio da floresta.

Cheguei 11h.

Fui direto para a Smart Fit para deixar minhas coisas — porque essa viagem é assim: mochila, improviso, corpo em movimento.

Depois, saí em busca do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, o mercado central de Manaus, ponto histórico e simbólico da cidade.

Antes da feira que eu havia mapeado no www.feirou.ai, precisei esperar. A feira só abriria às 14h. Então fui ao mercado. Porque em Manaus, como em qualquer cidade do Brasil, quem quer entender o lugar começa pelo alimento.

Foi ali que a viagem virou chave.

Recebi mensagem de um personagem essencial da cidade: o Motoboy da Feira do Produtor. Repórter do SBT, especialista em feiras, quase 100 mil seguidores nas redes. Um comunicador popular, desses que conhece o povo pelo nome. Ele me indicou caminhos:

— Vai na feira do peixe.

— Vai na feira Novo Modelo.

— Vai na Feira da Banana.

E ir com o nome certo abre portas. Conversar dizendo “vim por indicação de quem é da feira” muda tudo.

Na Feira do Peixe, entendi a força da pesca amazônica.

Na Feira Novo Modelo, ao lado do mercado municipal, vi a feira urbana pulsar.

Na Feira da Banana, uma espécie de Ceasa local, percebi a escala da produção e da distribuição de alimentos.

Conversei com feirantes.

Escutei histórias.

Aprendi sobre Manaus a partir de quem sustenta Manaus.

E foi ali que cunhei um novo termo pra mim.

Eu não sou turista.

Sou feirista.

Feirista é quem viaja o Brasil conhecendo as feiras.

E sigo repetindo um bordão que virou verdade absoluta:

Quem conhece a feira, conhece a cidade inteira.

Digo isso nos Ubers. Digo isso nas conversas. E cada vez mais isso se confirma.

Ainda visitei a feira do Shopping Ponta Negra, um contraste bonito: feira dentro do shopping, com produtos produzidos no próprio estado do Amazonas. Visitei também o Shopping Amazonas, onde fica a Smart Fit. Manaus mistura tudo: floresta, concreto, tradição e modernidade — e faz isso do jeito dela.

Agora escrevo da rodoviária.

Próximo destino: Boa Vista, Roraima.

Depois, Macapá.

E foi justamente aqui, na sala VIP da Amatur, que a estrada resolveu se repetir.

O ciclista Graton apareceu do nada.

Sentou ali, como quem já faz parte do cenário.

Mesma roupa. Mesmo corpo marcado pelo tempo e pela estrada. Cara de cansaço.

Será que ele também vai para Boa Vista?

Aos 72 anos, talvez esteja exigindo mais do corpo do que a maioria ousaria. Mas cada um sabe onde aperta, onde dá, onde aguenta. Alguns não sabem parar. Outros não querem. E talvez seja exatamente isso que mantém certas pessoas em movimento.

A viagem segue.

Talvez a parte mais complexa da jornada ainda esteja por vir. Não há ligação direta entre Boa Vista e Macapá. A logística é um desafio real. Mas o Feirou Brasil é isso: resolver no caminho.

Deixo Manaus com saudade.

E com certeza.

Certeza de que volto.

Quando der.

Quando puder.

Por enquanto, sigo — do jeito que dá, do jeito possível, do jeito verdadeiro.