Tem horas que bate um cansaço que não é físico.

É logístico.

É mental.

É geográfico.

Tô aqui em Boa Vista, Roraima, olhando o mapa do Brasil e pensando: como é que eu chego em Macapá, meu irmão?

Não tem ônibus.

Não tem atalho.

Não tem “só ir”.

O caminho é assim: volta pra Manaus → pega um barco até Santarém → outro barco até Macapá.

Três dias de rio.

Três dias de barco.

A mesma sensação de quando eu tava em Palmas tentando chegar em Porto Velho.

Ou em Porto Alegre tentando ir pra Campo Grande.

O Brasil não é grande — o Brasil é quebrado.

E o mais curioso é ouvir:

“Curte a viagem.”

“Vai turistando.”

“Aproveita.”

Não, galera.

Isso aqui não é turismo.

É feirismo.

Eu fico uma hora na feira e vinte e três horas dentro de ônibus, barco ou rodoviária.

O romantismo dura pouco.

O trabalho é longo.

Feirismo é acordar cedo, é chegar atrasado, é chegar cedo demais, é perder rota, é refazer caminho, é voltar pra ir pra frente.

Mas é também entender o Brasil como ele é,
não como aparece no Google Maps.

Quem faz feirismo entende uma coisa rápido: o Brasil não foi feito pra quem anda.

Nem pra quem cruza.

Nem pra quem conecta.

Mesmo assim, a feira acontece.

Mesmo assim, o feirante chega.

Mesmo assim, o povo dá um jeito.

E é por isso que eu continuo.

Porque se o feirante atravessa tudo isso toda semana pra trabalhar, o mínimo que eu posso fazer é atravessar também pra contar essa história direito.

O Feirou não é sobre chegar fácil.

É sobre não desistir de chegar.

Macapá tá longe.

Mas vai feirar.