Voltando do Feirou Brasil, tomei uma decisão simples, quase banal, dessas que parecem pequenas, mas dizem muito sobre o momento que estamos vivendo.

O Uber marcava cinquenta e quatro reais.

Abri o mapa mental da cidade e pensei: por que não o metrô?

Eu já tinha o bilhete.

A Linha Azul me levaria direto da rodoviária até a estação Conceição. Sem baldeação. Sem esforço. Um trilho contínuo, quase como se São Paulo, por um instante, tivesse decidido facilitar a minha vida.

Subi as escadas com a mochila nas costas e uma sensação curiosa: depois de atravessar o Brasil inteiro, eu estava novamente sendo engolido pela rotina silenciosa de uma cidade gigante.

O metrô chegou.

Entrei.

E foi ali, dentro daquele vagão, que algo me atravessou.

Comecei a olhar os rostos.

Rostos cansados.

Rostos pesados.

Rostos que carregavam o fim de um dia inteiro de trabalho.

Era o horário clássico da volta para casa de quem trabalha demais e faz hora extra, esse momento em que o corpo já chegou antes da alma e tudo o que a pessoa quer é um banho, uma comida quente e algum silêncio.

Muitos voltavam de longe.

Alguns provavelmente enfrentariam mais um ônibus depois do metrô.

Outros ainda caminhariam alguns quarteirões.

Cada um fazendo sua própria travessia diária.

E então pensei numa coisa quase absurda:

Ninguém ali fazia ideia de onde eu vinha.

Ninguém poderia imaginar quantos quilômetros estavam comprimidos naquele mesmo vagão.

Depois você até pode calcular, e talvez isso impressione no papel, mas a verdade é que números não traduzem travessias.

Porque não foram apenas quilômetros.

Foram madrugadas em rodoviárias.

Dias inteiros em barcos.

Noites mal dormidas.

Feiras agitadas.

Estradas infinitas.

Cidades desconhecidas que, de repente, viraram parte de mim.

Talvez, naquele vagão, eu fosse a pessoa que mais tinha andado nos últimos meses.

E, ainda assim, era provavelmente a mais desperta.

A mais viva.

A mais disposta.

Olhei ao redor e tive uma certeza silenciosa:

Se alguém ali me chamasse agora para continuar, eu iria.

Poderia descer em qualquer estação e procurar uma feira.

Poderia comprar outra passagem.

Poderia começar tudo de novo amanhã.

E não, isso não é soberba.

Não é sobre ser mais do que ninguém.

É apenas uma constatação íntima:

Existe uma diferença enorme entre quem apenas volta para casa e quem sente que ainda está indo.

A viagem não me cansou da vida.

Fez o oposto.

Ela me acordou.

Enquanto muitos ali estavam no fim de um dia, eu estava no começo de outra versão de mim mesmo.

Porque quando você atravessa um país inteiro, algo muda de lugar dentro de você.

A régua muda.

O medo diminui.

O mundo parece menor e as possibilidades, maiores.

O Feirou Brasil não foi só um projeto.

Foi uma expansão.

E talvez a maior descoberta dessa jornada seja esta:

O cansaço verdadeiro não vem dos quilômetros.

Vem da falta de sentido.

Quem anda por um propósito não se esgota, se transforma.

Desci na minha estação com a mesma mochila, mas já não era o mesmo homem que havia partido meses atrás.

São Paulo seguia acelerada, indiferente como sempre.

Mas dentro de mim havia uma calma estranha, quase uma prontidão.

Como se, no fundo, eu soubesse:

A viagem não terminou.

Ela só mudou de trilho.