O ônibus de Goiânia para Porto Velho está a pura lotação de Brasil.

Problemas, conflitos, improvisos, calor, desconforto — tudo junto, tudo misturado. E, curiosamente, tudo educativo.

Nessas viagens longas, eu entendi uma coisa: não dá para vencer todas as batalhas. Então ativei o modo tolerância máxima. O objetivo agora é evitar fadiga e estresse. Qualquer desentendimento pequeno pode virar um peso enorme depois de horas dentro de uma lata de ferro atravessando o país.

Já levei pancada na cabeça do passageiro de trás.

Já tive meu lugar ocupado — e deixei pra lá.

Já viajei horas com o cotovelo de um desconhecido cravado na minha costela.

E segui.

Respirei.

Deixei passar.

Mas em Tangará da Serra, tive que chamar o Diogo do Antigo Testamento.

Estamos em Mato Grosso.

Calor extremo.

Um ônibus que absorve todo o sol.

Ar-condicionado que não funciona direito desde o início da viagem — e que piorou depois da troca de ônibus. O anterior até dava conta. Esse não.

O ônibus treme tanto que escrever no celular virou um exercício de equilíbrio.

Em determinado momento, um passageiro reclamou com uma fiscal de que o ar não estava gelando. A resposta dela, sem sequer entrar no ônibus, foi:

— “Isso é menopausa.”

Ele entrou revoltado, contou o ocorrido, e o que era desconforto virou indignação coletiva. Uma pequena revolução por condições mínimas começou ali, no corredor.

A fiscal entrou no ônibus visivelmente alterada e passou a esculachar os passageiros. Disse que ninguém ali conhecia Mato Grosso, que estava 40 graus lá fora e que não havia motivo para reclamação.

Foi aí que eu precisei me posicionar.

Falei com calma, mas com firmeza:

“Geladeira não gela aqui, não?

Seu carro, se o ar não estiver gelando, você aceita ou leva na oficina?

Então esse ar aqui tem que gelar.

Se não funciona, está errado.

Anota a reclamação e leva para quem possa resolver ou ressarcir.

Justificar que o ar não funciona porque estamos em Mato Grosso é absurdo.”

Silêncio.

Alguns olhares.

A fiscal recolheu a viola, literalmente colocou a viola na sacola, e seguimos viagem.

Calorentos.

Mas mais unidos.

É curioso como o conflito, quando bem colocado, organiza o caos.

Outro detalhe dessa estrada: a rodovia que liga Mato Grosso a Rondônia cruza território indígena. No caminho, existem dois pedágios administrados por indígenas, com direito a ocas construídas ao lado da pista, marcando presença, território e autonomia.

É o Brasil em camadas.

É o Brasil atravessando o Brasil.

Essa viagem está me ensinando que tolerância não é submissão.

E que se posicionar não é brigar — é organizar.

Seguimos.

Com calor.

Com aprendizado.

E com mais consciência do país real que cabe — apertado — dentro de um ônibus.