Natal foi demais.
E o mais curioso é que eu achei, sinceramente, que não daria em nada.
Segunda-feira costuma ser ingrata para quem vive de feira. Logo cedo, dei aquela olhada clássica: mapa aberto, buscas rápidas, checagem de horários. Quase nenhuma feira ativa. Só a Feira das Rocas aparecia como possibilidade — e mesmo assim, com aquela dúvida no ar: será que acontece mesmo numa segunda?
Pensei então no Ceasa. Não como feira em si, mas como origem. O lugar onde os feirantes se abastecem, onde a feira começa antes da feira existir. Essa ideia não veio do nada. Já tinha ouvido isso do Edu da melancia, lá na Feira do Capão Redondo, em São Paulo: “segunda-feira é dia de Ceasa”. Aquilo ficou guardado.
Mas aí veio o choque com a realidade digital. Google dizendo que o Ceasa estava fechado. Informações desencontradas. Sites que não se conversam. E é exatamente por isso que o Feirou existe: porque o Brasil real não cabe nos horários da internet.
Fui mesmo assim.
E ainda bem.
O Ceasa de Natal foi fabuloso. Um dos conteúdos mais diferentes que já fiz até agora. Nada parecido com o que vinha produzindo. E isso só foi possível porque encontrei o Jonas, diretor do Ceasa aqui do Rio Grande do Norte, que abriu caminhos, conversas, portas e histórias.
Mais uma vez, a viagem me mostrou que quando o plano parece falhar, é exatamente aí que algo maior acontece.
Tenho sentido isso com força no Feirou Brasil. As coisas se encaixam num nível que eu não sei explicar direito. Parece que tudo acontece na hora certa. Como se fosse uma tempestade perfeita — ou o contrário dela. Como se os astros estivessem conspirando para que o projeto aconteça do melhor jeito possível.
Ontem, em Fortaleza, uma cobra aparece exatamente no momento em que eu passo.
Hoje, em Natal, as pessoas estão comendo cuscuz na barraca exatamente na hora em que eu chego.
Nada ensaiado. Nada forçado. Tudo acontecendo.
Não sei se é coincidência, fé, destino ou simplesmente estar aberto ao caminho. Mas, por onde eu passo, as pessoas me abençoam. Literalmente. Desejam coisa boa. Falam palavras fortes. Olham nos olhos.
Isso tem sido uma das partes mais intensas da viagem.
O problema é que, quando o dia acaba, o corpo cobra. Converso com todo mundo. Escuto histórias. Troco ideia com feirante, freguês, carregador, vendedor, curioso. E quando chega ali pelas seis, sete da noite… eu estou estafado. Cansado de um jeito profundo, mental. Sem força até para escrever.
Este texto aqui, inclusive, está sendo escrito no limite. Um esforço real. Quase desumano.
Mas eu sei que vai valer a pena.
Esses relatos vão ficar.
Essa história vai ser contada.
E, mesmo cansado, sigo escrevendo — porque o Brasil que eu estou vendo merece ser registrado.
Natal provou isso hoje.
