Parei mais um pouquinho para escrever no barco pela absoluta ausência do que fazer.

De longe, o barco pode até parecer divertido.

De perto, ele é só isso: o único transporte possível.

A viagem não é cara.

Custa cerca de R$150 para algo em torno de 40 horas navegando.

De ônibus, isso sairia fácil por uns R$500.

E dentro do possível, o barco até entrega algumas vantagens: dá para tomar banho, fazer a barba, e dormir melhor do que numa poltrona de ônibus.

A rede — apesar de fazer minhas costas coçarem o tempo todo — ainda é mais confortável para dormir do que qualquer banco reclinável.

Mas é importante deixar claro: não existe meio-termo aqui.

Ou você está de pé, ou você está na sua rede.

Não há cadeiras.

Não há espaço para “dar uma sentada”.

A rede é tudo.

Falando em rede: tem internet via satélite no barco.

Custa R$25 por 24 horas ou R$45 pela viagem inteira.

Eu optei pela experiência sem internet.

Chega um pouco de tela.

Vou escrever mais por aqui, na rede física mesmo, e usar a internet só depois, para postar.

Quando o barco passa por alguns portos, o 5G volta por alguns minutos.

É nesse intervalo que eu respondo mensagens, retorno contatos e acompanho o perfil do Feirou.

E já que estamos falando de internet, ontem aconteceu uma situação bem simbólica.

No primeiro dia de viagem, informaram que o pagamento do almoço só podia ser feito em dinheiro ou Pix.

A pergunta veio automática:

— Como faz Pix sem internet?

A resposta foi simples e direta:

— É só comprar internet.

Aí eu dei uma causada.

Falei em venda casada, mencionei o Código de Defesa do Consumidor, pedi o livro, falei que avisaria a Capitania dos Portos.

Resultado?

Milagrosamente surgiu uma senha temporária de internet — apenas para eu conseguir pagar o almoço.

Achei meio paia.

Um barco desses, com cerca de 200 pessoas, não aceitar cartão?

Mas cada canto é um conto diferente.

No fim das contas, eles sempre têm que resolver conforme a lei.

O problema é que nem sempre o brasileiro cobra seus direitos básicos.

E assim seguimos: um dia após o outro, um barco após o outro, aprendendo no balanço do rio que reclamar também é uma forma de navegar.