O Brasil vive uma epidemia silenciosa de sofrimento mental masculino. E ela não está escondida. Ela está exposta, repetida, escancarada: nas ruas, nas rodoviárias, nos ônibus, nos restaurantes de estrada, nos corredores onde a gente espera horas por um embarque como se a vida fosse só mais uma senha.
Eu não estou falando como especialista. Estou falando como alguém que está atravessando o país por dentro, no chão da viagem, ouvindo e vendo o que normalmente passa batido. E o que eu vejo, com frequência preocupante, é um padrão: homens em estado de colapso emocional, muitas vezes agravado por álcool e drogas, tentando existir no mundo com a mente em guerra.
A sensação é que o Brasil está ficando doente e que a gente não sabe muito bem o que fazer com isso.
Em várias cidades, em várias rodoviárias, encontrei pessoas com um tipo de desespero específico: uma paranoia constante, uma necessidade de vigiar tudo, um medo de estar sendo seguido, observado, caçado. É como se o mundo inteiro fosse ameaça. E aí qualquer olhar vira perseguição. Qualquer movimento vira sinal. Qualquer pessoa vira inimigo.
Eu não vou dar nome clínico pra isso porque eu não tenho formação pra isso. Eu nem quero transformar sofrimento em rótulo. Mas é impossível ignorar: tem gente vivendo um filme dentro da própria cabeça… e esse filme não desliga.
O caso que mais me marcou aconteceu no ônibus de Goiás para Porto Velho.
Vou chamar o rapaz de Fênix, para preservar a identidade dele.
O Fênix passou a viagem inteira se escondendo. Mudava de banco o tempo todo. Não descia nas paradas. Quando descia, se trancava no banheiro e alguém precisava tirá-lo de lá para o ônibus seguir. Era uma tensão permanente, um corpo que não descansava, um olhar que não pousava em lugar nenhum.
Ele falava, com convicção, que estava sendo perseguido por uma quadrilha. Disse que estavam atrás dele porque achavam que ele tinha “caguetado” um esquema envolvendo empresa de ônibus e o trabalho dele. A história vinha em pedaços, desencontrada, mas sempre com o mesmo centro: perseguição, ameaça, risco, fuga.
E o mais pesado de tudo: a única pessoa com quem ele se abriu naquele ônibus foi comigo.
Não porque eu tenha alguma habilidade especial, mas talvez porque eu pareça, de algum modo, uma presença neutra. Um estranho que vai embora. E às vezes é isso que permite a confidência: falar para alguém que não vai ficar.
Chegamos em Porto Velho e ele foi um dos primeiros a descer. Eu até registrei esse momento sem perceber o peso que aquilo teria depois. Porque quando eu voltei da feira — da Feira do Cai n’Água — ele estava lá. Na rodoviária.
Ele me contou que desceu do ônibus no meio do caminho porque achou que estavam atrás dele. E o ônibus foi embora. Ele ficou. Sem celular. Sem dinheiro. Sem rumo. Disse que tinha deixado tudo dentro do ônibus, justamente porque saiu fugindo.
E ali, na rodoviária de Porto Velho, ele continuava preso no mesmo estado mental: alerta máximo, olhos varrendo o ambiente, interpretando cada movimento como ameaça. O tempo inteiro com essa sensação de que alguém estava observando.
Eu não sabia o que fazer.
Quando alguém está em sofrimento, a vontade é resolver. Mas eu não sou profissional da área. Eu não tenho como diagnosticar, encaminhar, garantir cuidado. Eu só tinha presença e palavra.
Então eu fiz o que consegui: conversei.
Ele mesmo disse que quando bebia, usava droga. E eu tentei ser direto, sem sermão: falei que álcool e drogas, para quem já está instável, são gatilhos fortes. Que a chance de piorar é enorme. Que talvez o primeiro passo para ele reencontrar chão fosse parar de beber ou pelo menos buscar ajuda para isso.
Contei exemplos da minha vida, como quem tenta acender uma luz pequena no meio de um apagão. Porque às vezes a única coisa que dá para oferecer é uma ideia de saída.
E também falei uma coisa que eu acredito muito: Rodoviária é o pior lugar do mundo para quem acha que está sendo perseguido.
Porque ali todo mundo já está cabreiro por natureza. Todo mundo está cuidando da mala. Todo mundo olha. Todo mundo desconfia. Não porque está te perseguindo, mas porque está tentando sobreviver.
É um lugar onde cada um está atento ao próprio perigo. E isso, para alguém em crise, vira “prova” de que a perseguição é real.
Saí da rodoviária sem saber se ajudei.
Fui embora para seguir a viagem e ele ficou. Aguardando um Pix da mãe, tentando se organizar, dizendo que lembrava o número de cabeça. E eu fui embora carregando uma sensação que não cabe na mochila: a de impotência.
Essa viagem do Feirou Brasil tem me mostrado muita coisa bonita. Solidariedade. Gente boa. Feirante que abraça projeto. Brasil que acolhe.
Mas ela também está me mostrando esse outro Brasil: o Brasil onde muita gente está quebrando por dentro e ninguém está vendo.
A gente fala de economia, política, estrada, preço, feira, comida, gasolina, imposto. Mas tem uma urgência que está andando do nosso lado com o olhar perdido: saúde mental.
E eu arrisco dizer uma coisa que pode incomodar: Os homens do Brasil estão adoecendo em silêncio.
E quando isso explode, explode em rodoviária, explode em ônibus, explode em lugar público, explode no improviso, porque não houve cuidado antes.
Não é fraqueza.
Não é “loucura”.
É sofrimento sem rede.
E quando esse sofrimento se mistura com álcool e droga, ele vira uma tempestade.
Eu não tenho resposta pronta. Mas eu tenho certeza de uma coisa: isso precisa entrar na conversa pública com seriedade. Precisa virar pauta. Precisa virar cuidado. Precisa virar política. Precisa virar comunidade. Precisa virar responsabilidade.
Porque um país que normaliza seus homens se destruindo por dentro não é um país forte.
É um país que está apenas acostumado com o colapso.
E no meio disso tudo, eu sigo fazendo o que eu sei fazer: andar, observar, ouvir e escrever. Porque às vezes o primeiro passo para mudar alguma coisa é simplesmente parar de fingir que não está acontecendo.
