Hoje foi, sem dúvida, o dia mais proveitoso de toda a viagem.
Dois estados. Duas capitais. Quilômetros de pressa.
E uma certeza: quando o propósito é maior que o corpo, a gente vai, mesmo quando parece impossível.
A madrugada começou em pé.
Cheguei à rodoviária de João Pessoa pouco depois da uma da manhã e, até as cinco, não existiu descanso. Não havia banco convidativo, não havia silêncio, não havia madrugada gentil. Existia apenas o tempo passando devagar e a responsabilidade de fazer o dia acontecer quando o sol nascesse.
Às cinco, segui para a Smart Fit. Mochila guardada, rosto lavado, dignidade minimamente reorganizada… e rua.
O primeiro destino foi o Mercado da Torre.
Ali, comecei o dia como se deve começar um dia nordestino: com coragem no prato. Mocotó, buchada de bode, cuscuz, inhame e café preto. Uma combinação que ao mesmo tempo pesa e levanta. Dá sono e dá energia. Confunde o corpo, mas alimenta a alma.
Segui então para a feira do IFPB. Mais café. Mais uma tapioca com queijo e presunto. O tipo de comida que não só sustenta, ela abraça.
No Mercado Central, um feirante me ofereceu um cachorro-quente. Aceitei como quem aceita um gesto de hospitalidade antiga. Acompanhei com um suco de manga que parecia ter sido espremido do próprio sol.
A última parada foi a Feira de Artesanato de Tambaú. Ali não comi, apenas bebi um coco. Era menos fome e mais necessidade de continuar em pé.
Hidratação para seguir vivo.
Ao meio-dia, rodoviária novamente.
Passagem comprada para Recife.
Dentro do ônibus, finalmente, o corpo desligou. Dormi como quem apaga uma luz antiga. Quando acordei, já eram quase três da tarde e outra cidade me esperava.
Recife não permite preguiça.
Eu sabia que precisava de energia, e precisei mesmo.
Peguei um mototáxi, Tiago, um desses guias improvisados que a estrada entrega quando percebe que você está disposto. Tiago me levou por três feiras: Encruzilhada, Água Fria e Beberibe.
Mototáxi para um lado, câmera para o outro, perguntas, conversas, risadas rápidas, histórias interrompidas pelo barulho das ruas.
Em alguns momentos, o cansaço ainda tentava me puxar para baixo. Cheguei a cochilar no próprio mototáxi, um luxo perigoso que só quem está no limite conhece.
Mas o corpo entende quando desistir não é uma opção.
E ele obedece.
Hoje o Feirou Brasil correu. Correu bonito. Correu com propósito.
João Pessoa pela manhã. Recife à tarde.
Feiras diferentes, sotaques diferentes, mas a mesma essência: gente acordando cedo para viver do próprio trabalho.
Agora escrevo do ônibus, já em direção a Maceió.
A sensação é curiosa, como se o mapa estivesse encolhendo diante dos meus olhos. Falta menos. O fim da travessia começa a aparecer no horizonte.
Se tudo der certo, ainda quero gravar Maceió, seguir para Sergipe e depois Salvador.
Dois dias assim seriam perfeitos.
Não porque a viagem precise acabar, mas porque toda jornada longa ensina uma coisa importante: chegar também faz parte do sonho.
Hoje foi o dia em que o cansaço perdeu.
E quando o cansaço perde, a estrada respeita.
O Feirou segue.
