Eu vi o pôr do sol em todos os estados do Brasil. Às vezes através da janela de um ônibus em movimento. Outras vezes filtrado por viseiras de capacetes sujos, embaçados pelo ar-condicionado de um Uber, riscados pela pressa. Eram pores do sol meio difusos, daqueles que a gente vê mais com a intuição do que com os olhos. Sabia que estavam ali, mas quase nunca tinha tempo de parar para realmente assistir.

Até Salvador.

Fui obrigado a ficar um dia na cidade por falta de passagem para Vitória. Um atraso que, na hora, pareceu apenas mais um obstáculo desses que a estrada impõe sem pedir licença. Acabei me hospedando na Pousada da Paciência, na Praia da Paciência, nome curioso, quase irônico, como se o destino tivesse decidido fazer um trocadilho com o meu momento.

Passei o dia inteiro ali.

Sozinho.

Sem fazer nada.

O corpo coçava inteiro, tomado por alergias que surgiram não sei de onde, talvez do cansaço acumulado, talvez da mistura de sol, sal, noites mal dormidas e quilômetros demais nas costas. Enquanto me remexia naquela cadeira de praia, tentava entender se aquilo era um privilégio ou um sacrifício.

Estar ali era uma bênção ou uma provação?

Uma dádiva ou um teste?

Não sabia.

Ao meu redor, a vida seguia num ritmo absolutamente comum e, por isso mesmo, extraordinário para quem passa tempo demais em trânsito. Casais discutiam com a intimidade de quem sabe que vai fazer as pazes depois. Dois amigos tentavam salvar o país numa conversa política embriagada. Grupos riam alto, bebiam sem motivo, fumavam como se o amanhã fosse uma abstração distante.

Vi gente querendo resolver o mundo sem conseguir resolver a própria semana.

E, paradoxalmente, havia algo de profundamente humano nisso tudo.

Ali, sentado, fui atravessado por uma saudade imensa da minha namorada, da minha companheira, da minha casa — daquela rotina silenciosa que só parece pequena até o dia em que nos falta.

Olhei em volta e percebi que muitas daquelas cenas já foram minhas um dia. A diferença é que agora eu estava do lado de fora, observando a vida acontecer como quem assiste a um filme já conhecido.

Foi então que decidi:

— Vou ver o pôr do sol.

Parecia simples, mas não era. Havia vídeos para editar — especialmente os de Salvador. Eu precisava publicar, manter o ritmo, honrar o compromisso que fiz com essa viagem. Consegui postar um deles quase bruto, um registro direto do mototáxi me levando até a Feira de São José. Sem firulas. Sem lapidação.

Mesmo assim, uma pequena frustração insistia em ficar.

Eu vim para essa viagem para contar as histórias das feiras. E ali estava eu, parado diante do mar, vendo o dia terminar.

Mas talvez contar o Brasil também seja isso, permitir-se, às vezes, apenas olhar.

Abri a previsão do tempo no celular: o pôr do sol seria às 18h08.

Eram 18h05.

O sol já começava sua descida lenta, como quem não tem pressa alguma de desaparecer.

Pensei em tarefas banais, comprar um sabonete, porque o meu tinha acabado; um desodorante novo, porque o antigo já não existia mais. Pequenas evidências de que a viagem estava, de fato, chegando à sua reta final.

Faltam apenas quatro capitais.

Justamente na região que eu melhor conheço, onde tenho mais contatos, mais referências. Talvez seja o trecho mais tranquilo do caminho.

E, ironicamente, também o trecho em que estou mais exausto.

O corpo sente. A mente sente. A alma também.

Mas, enquanto o sol mergulhava no horizonte da Praia da Paciência, uma certeza silenciosa se formou dentro de mim: Essa viagem não está terminando.

Ela está começando.

Porque toda travessia muda quem atravessa, e eu já não sou o mesmo que saiu lá atrás com uma mochila cheia e um mapa aberto.

O sol se põe todos os dias, mas ninguém chama isso de fim. A gente chama de ciclo.

Logo ele nasce de novo.

E quando nascer, o Feirou também nasce outra vez, em cada feira, em cada rosto, em cada história que ainda precisa ser contada.

Essa viagem pode até estar anoitecendo.

Mas o Feirou é manhã.