Eu esqueci de escrever sobre o Rio de Janeiro.
E isso, vindo de mim, diz muita coisa.
Sou cria do Rio. Nascido, criado, moldado pelo caos e pela beleza dessa cidade. Talvez por isso eu tenha passado por ela como quem passa pela sala de casa: sem reparar no sofá, sem comentar a vista da janela, sem sentir necessidade de explicar o óbvio. O Rio sempre esteve ali. Sempre foi meu chão.
E foi exatamente por isso que eu não escrevi.
Passei pelo Rio já pensando no fim da viagem, no cansaço acumulado, nos quilômetros que ainda precisavam ser fechados. O Rio virou passagem, quando, na verdade, merecia pausa.
E ironicamente, foi o Rio que me lembrou disso.
Cheguei com o olhar torto. Crítico. Desconfiado. Vi o metrô sem locutora, o trânsito caótico por conta da volta às aulas, o Uber inflacionado, a cidade funcionando no limite, como tantas outras vezes. Quando fui até a primeira feira que procurei, na Epitácio Pessoa, em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, ela simplesmente não existia naquele dia. Não tinha feira.
Aquilo confirmou o preconceito momentâneo que eu carregava comigo: “o Rio é bagunça”.
Mas o Feirou Brasil me ensinou uma coisa nessa viagem inteira: quando uma feira não acontece, não é o fim, é só um convite pra insistir.
E eu insisti.
Segui procurando. Segui andando. Segui acreditando.
E, como tantos outros acasos dessa viagem, o Rio resolveu me surpreender.
Fui parar numa feira no Leme. Um canto da cidade que, mesmo sendo carioca, eu nunca tinha vivido daquele jeito. Uma feira pequena, organizada, acolhedora. Os feirantes me receberam com abertura, com verdade, com vontade real de melhorar a própria feira. Falavam de mudança de local, de sair da exposição excessiva ao tempo, de pensar a feira como algo vivo, que pode evoluir sem perder a essência.
Ali não teve discurso ensaiado.
Teve alma.
E o cenário… o cenário parecia coisa de filme. A natureza do Leme integrada à feira, o bairro respirando junto com as barracas, o Rio mostrando um lado que não aparece no cartão-postal clichê, mas que explica exatamente por que essa cidade ainda resiste.
Eu gravei a manhã inteira sem uma gota de chuva.
E isso, no Rio em mal tempo, não é pouco.
Foi só quando peguei o último mototáxi, já indo embora, que começou a chuviscar. Um aviso sutil. Um “agora vai”. Desci no metrô, segui o caminho, peguei um Uber no Jardim Oceânico. No instante em que entrei no carro, o céu desabou.
O motorista comentou:
— Ainda bem que você teve sorte, quase pegou essa chuva.
Ele não fazia ideia.
A sorte não era escapar da chuva.
A sorte era o Rio ter segurado o céu aberto até o último segundo da gravação.
Como se dissesse:
“Vai lá. Faz teu trabalho. Depois eu cuido do resto.”
O Rio feirou.
Feirou do jeito dele.
Desorganizado num ponto, generoso em outro.
Difícil, mas justo.
E no fim das contas, talvez eu não tenha escrito sobre o Rio antes justamente porque ele não precisava ser explicado. Ele precisava ser vivido, mais uma vez, de outro jeito.
O Feirou Brasil passou pelo Rio.
Mas, dessa vez, o Rio passou por mim também.
E colaborou.
