O barco demora mesmo.
E demora porque não tem para onde correr.
Minuto a minuto eu vou entendendo que, aqui dentro, não há nada para fazer. Nada mesmo.
Não tem feed.
Não tem notificação.
Não tem timeline para rolar fingindo que o tempo anda.
Existe o rio.
O motor.
A rede.
E o corpo.
Internet até existe — mas custa 45 reais. E eu não pago. Não por falta de dinheiro apenas, mas por princípio. Porque essa travessia não é sobre acelerar, é sobre aguentar.
Na parte de cima do barco tem um bar. Três homens, claramente perdidos, trocam Skol por histórias que não levam a lugar nenhum. Bebem para passar o tempo, mas no fundo estão só perdendo tempo, saúde e dinheiro. O barco anda. Eles não.
Aqui embaixo, a espera é silenciosa. O jantar foi anunciado para às 18h30. Já são mais de 12 horas desde o café da manhã. O jejum intermitente virou rotina sem querer. Não por moda, por logística.
Do meu lado, uma menina que deve pesar nove vezes menos que eu já almoçou, tomou sorvete, comeu Nutella e ainda preparou aquele copo de macarrão instantâneo com água quente. A vida é injusta até na digestão.
Eu tinha dito que não ia comer muito.
Mentira.
Vou comer sim. Porque o corpo cobra. E nessa viagem, ou você escuta o corpo ou ele te derruba.
O curioso é que, em todas essas travessias longas — Porto Alegre a Campo Grande, Palmas a Porto Velho, Porto Velho a Manaus, agora aqui no barco — sempre aparece alguém dizendo a mesma frase:
“Nunca mais faço essa viagem.”
Eles falam isso aliviados, como quem escapou de algo.
O que eles não sabem é que, quando essa viagem termina pela manhã, à noite eu já começo outra.
Enquanto muitos chegam e precisam de um dia inteiro para se recuperar, eu chego, deixo a mochila num canto, vou à feira e entro no maior pique do mundo. E os vídeos estão aí para provar.
Cada um carrega a viagem que consegue carregar.
Eu escolhi carregar a difícil.
Não a difícil para contar vantagem.
Mas a difícil porque ela me atravessa, me forma, me ensina.
Esse barco não oferece distração.
Ele oferece tempo.
E tempo sem anestesia revela tudo.
O tédio aqui é professor.
A espera é disciplina.
O silêncio é espelho.
É duro? É.
Mas foi esse o caminho que eu escolhi.
E quando a escolha é consciente, a única coisa que resta é agradecer — não pelo conforto, mas pela coragem de seguir.
