Deve ter uns cinco anos que uma nota de dois reais mora na minha carteira.
Eu não sei explicar como ela foi parar ali.
Se foi troco.
Se veio junto com outras notas.
Se alguém me pagou alguma coisa e ela estava no meio.
Eu simplesmente não lembro.
O que eu sei é que ela ficou.
Entraram notas de cinquenta.
Saíram notas de cinquenta.
Entraram notas de cem, de duzentos.
Dinheiro vai, dinheiro vem.
Mas aqueles dois reais permaneceram.
Nunca precisei usá-los.
Nunca fizeram falta.
Viraram parte da carteira como se fossem um documento antigo, uma lembrança esquecida, um amuleto involuntário.
Esses dois reais viajaram comigo por lugares que eu já nem sei listar.
Cidades, estados, rodoviárias, aeroportos.
Eu sei que eles cruzaram fronteiras.
Eu sei que eles já saíram do Brasil e voltaram exatamente do mesmo jeito: intactos, guardados, esperando alguma coisa.
Eu não fazia ideia do quê.
Até chegar à Amazônia.
Nas margens do Rio Amazonas existem comunidades ribeirinhas.
E quem navega por ali aprende rápido uma cena que se repete: quando o navio passa, as crianças aparecem.
Barquinhos pequenos, com motores barulhentos, se aproximam do casco.
As crianças ficam ali, acompanhando o navio, esperando.
Esperando que alguém jogue alguma coisa.
Alguns passageiros jogam brinquedos.
Outros jogam roupas.
A maioria joga comida.
Salgadinhos, biscoitos, coisas que nem são alimento de verdade — mas que, para aquelas crianças, viram festa.
Porque o acesso a qualquer coisa industrializada ali é quase impossível.
Elas só comem aquilo quando o navio passa.
Quando o Brasil passa por elas — e segue viagem.
Durante o dia inteiro, vi sacos voando do navio para o rio.
Vi risadas, mergulhos, braços levantados.
À noite, veio a surpresa.
Um daqueles barquinhos encostou de verdade no navio.
Como pequenos piratas amazônicos.
Eles subiram.
Entraram vendendo compotas de palmito, alguns itens improvisados, coisas simples.
Venderam tudo.
Depois, passaram de rede em rede pedindo ajuda.
E foi aí que uma das crianças parou na minha frente.
Sem “tio”.
Sem “senhor”.
Sem pedido ensaiado.
Ele só disse, seco, direto, verdadeiro:
— Me dá dois reais.
Achei aquilo de uma fofura brutal.
Sem cerimônia.
Sem performance da pobreza.
Só a objetividade de quem sabe exatamente o que quer.
Eu ri por dentro.
Falei pra ele:
— Abre aí a mochila da frente. Se tiver dois reais, pode pegar.
Ele abriu.
Pegou minha carteira.
Eu deixei.
— Tem quanto aqui? — perguntei.
— Dois reais — ele respondeu.
— Então pode levar. Esses dois reais vieram de muito longe pra você.
Ele pegou.
E foi embora.
Naquele momento eu entendi tudo.
Aqueles dois reais não estavam esquecidos.
Estavam em trânsito.
Deram a volta no mundo, cruzaram cidades onde não fizeram falta, atravessaram países onde seriam troco inútil, sobreviveram a carteiras cheias — para terminar exatamente ali.
Na margem do Rio Amazonas.
Na mão de quem precisa.
Às vezes, o dinheiro também tem destino.
