Hoje eu cheguei no ponto mais frustrante da viagem.

Não foi o cansaço físico.

Não foi a fome.

Não foi dormir em rodoviária, nem em ônibus, nem em rede de barco.

Foi a logística quebrando pela quarta vez.

Existe um padrão curioso nessa viagem: sempre que chego nas pontas do Brasil, algo me obriga a voltar.

A ir e depois desfazer o caminho.

A pagar duas vezes.

A aceitar que o mapa não funciona como o desejo.

Foi assim no Sul.

Cheguei em Porto Alegre e precisei voltar por Florianópolis e Curitiba para seguir.

Foi assim no Acre.

Cheguei a Rio Branco e precisei retornar a Porto Velho para conseguir avançar.

Foi assim no Tocantins.

Palmas exigiu Goiânia antes de permitir Porto Velho.

E agora, mais uma vez, isso acontece — Macapá.

A distância não é só geográfica.

Ela é logística, econômica e emocional.

Chegar a Macapá não é apenas “ir”.

É descobrir que não há caminho direto.

Que cada escolha errada custa quilômetros, dias e dinheiro.

Que um erro de cálculo vira uma volta de milhares de quilômetros.

Quando me explicaram a alternativa de ir até Porto Velho para então voltar cruzando o Brasil por baixo, refazendo estados inteiros, eu percebi que aquilo não era um plano — era um absurdo logístico. Seriam quase 3.000 km a mais. Uma punição disfarçada de solução.

Por isso escolhi o rio.

Manaus → Santarém → Macapá.

O rio parecia lógico.

O rio parecia o Brasil funcionando do jeito que sempre funcionou.

Mas o rio também cobra.

O barco atrasou.

O que era para chegar às seis da manhã chegou às dez e meia da noite.

E quando chegou… não havia mais barco para Macapá.

Nem naquele dia.

Talvez nem no seguinte.

E ali veio a frustração real.

Não aquela que explode.

Mas a que pesa.

A frustração de entender que você fez tudo certo — e mesmo assim não foi suficiente.

Que planejou, pesquisou, improvisou — e ainda assim caiu num vazio logístico.

Agora, a solução é dormir no barco.

Na rede.

Quase sozinho.

Esperar o dia seguinte.

Esperar um novo horário.

Esperar se haverá vaga.

Esperar mais 48 horas de rio.

Esse é, sem dúvida, o momento mais frustrante do Feirou Brasil até agora.

Não porque é o mais difícil fisicamente.

Mas porque é o que mais testa a cabeça.

É aqui que a viagem deixa de ser aventura e vira resistência.

É aqui que a ideia de “seguir” perde o romantismo e vira escolha diária.

Essas frustrações são mais pesadas do que a própria realidade.

Porque a realidade é simples: atrasou, não tem, dorme aí.

A frustração é o que a cabeça cria em cima disso.

O “por que comigo?”.

O “de novo?”.

O “até quando?”.

Hoje é dia 24 de janeiro.

Um sábado.

E hoje eu não estou celebrando nada.

Estou apenas aguentando.

Mas tem uma coisa que essa viagem já me ensinou:

os dias mais difíceis não são os que quebram a história —

são os que dão densidade a ela.

Se fosse fácil chegar a Macapá, talvez não fosse necessário ir.

Talvez não fosse tão importante.

O Feirou Brasil não é sobre conforto.

É sobre insistência.

E, mesmo cansado, estafado e frustrado,

eu sigo.

Não porque está fácil.

Mas porque já fui longe demais para fingir que não importa.

Amanhã, o rio decide.