Tem horas em que eu não sei nem o que estou fazendo.

Não é força de expressão.

É literal.

Tem horas em que é impensável raciocinar algo como falar do Feirou para um feirante, explicar o projeto para um freguês, ou até lembrar qual é o propósito maior dessa viagem. Nessas horas, não existe discurso, não existe causa, não existe estratégia.

Existe sobrevivência.

Agora, por exemplo, estou no porto de Santarém. Com fome. Dor de cabeça. Cansado. Sem rumo. Sentado num banquinho de plástico quebrado, desses presos no chão por parafusos enferrujados, como se até a possibilidade de ir embora tivesse sido aparafusada ali.

Se alguém sentar do meu lado agora e perguntar:

— Qual é o propósito dessa viagem?

A resposta não é Feirou Brasil.

Não é feira.

Não é transformação social.

A resposta é simples e bruta: chegar em Macapá.

Nada além disso.

Quando as distâncias ficam longas demais, o cérebro encolhe.

Quando o cansaço acumula, o propósito evapora.

E o projeto vira um GPS: só importa o próximo destino.

Aqui em Santarém, o ambiente cobra um preço mental alto.

Já vi brigas incontáveis entre estivadores. Um puxando faca. Outro ameaçando quebrar a perna do colega. Pauladas no pé. Gritos. Juramentos de morte. Discussões que parecem não ter começo nem fim.

Perguntei para a moça do café se isso era comum.

Ela respondeu: “Às vezes.”

Esse “às vezes” diz tudo.

É um espaço onde muita gente observa tudo acontecer, em pé, em silêncio, como se estivesse apenas esperando a próxima faísca. Uma realidade extrema do Brasil. Dura. Tensa. Complexa.

E, confesso, dá vontade de se conformar.

Dá vontade de pensar:

“Pra que mexer num vespeiro desses se a minha vida é melhor do que isso?”

“Pra que comprar briga com um sistema que parece grande demais?”

É exatamente aí que o sentido começa a voltar.

Porque basta olhar um pouco mais atento para perceber as distorções absurdas que convivem no mesmo espaço. No mesmo barco que transporta uma moto de duzentos mil reais — algo que eu nunca vou conseguir comprar — está o homem que empurra essa moto. E esse homem não ganha duzentos reais por dia.

Essa cena sozinha explica um país inteiro.

Pessoas que não ganham nada carregando riquezas que nunca vão ter, mas vão tocar, se frustrar.

Trabalhadores invisíveis sustentando estruturas milionárias.

Força física barata movendo capital caro.

Quando o propósito some e a viagem vira apenas deslocamento, a realidade faz questão de trazer tudo de volta. Não como discurso, mas como choque.

O Feirou Brasil não existe para romantizar a pobreza, nem para fazer turismo social. Ele existe para que cenas como essa deixem de ser normais. Para que trabalho signifique dignidade. Para que renda circule melhor. Para que o Brasil não seja um país onde poucos acumulam e muitos empurram.

Eu não preciso provar isso para ninguém.

Preciso provar para mim mesmo.

E é curioso como funciona: quando tudo vira sobrevivência, quando o projeto parece distante, é justamente a realidade mais dura que puxa o fio do sentido de volta.

Aqui, cansado, com fome e sem glamour nenhum, eu lembro por que comecei.

Não para chegar em Macapá.

Mas para entender o Brasil até o limite.

E, se for possível, ajudar a empurrar esse país — nem que seja um pouco — para um lugar mais justo do que esse banquinho quebrado onde eu estou sentado agora.